Barbosa, Augusto e Juvenal; Bauer, Danilo e Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Duas referências nesse time: meu nome devo ao meia esquerda Jair, o Jajá da Barra Mansa, a outra Chico, uruguaianense amicíssimo do meu pai.
Eu tinha um único botão puxador, quebrado, por isso não usava. Dei-lhe o nome de Tesourinha e sempre ficava na caixa. Os “puxadores” eram os melhores, e meu pai dizia que ninguém jogava mais que o Tesourinha, e que não fora na seleção de 50 por estar machucado. Portanto, Tesourinha, o melhor, não poderia jogar no meu time. Estava quebrado.
Pois o meu primeiro time de botão, a seleção brasileira de 1950, que eu tinha um desejo imenso de redimir, jamais o seria pelas minhas mãos, pelo singular motivo de que eu era muito ruim na tal prática. Parti então para variáveis mais consistentes, como me deixar levar pelo mesmo motivo que se deixam levar os amadores do esporte: paixão.
E assim, o meu segundo time foi o Grêmio, que na época não carecia ser redimido e sim exaltado. E com puxador novo e tudo que eu tinha direito, afinal, o Dia das Crianças de 1960 marcava meus 10 anos.
Foi nesse período que conheci um cidadão. Um dia meu pai conversava com um jovem amigo, enquanto eu lidava com meus atletas novos de mesa. O velho Portella me chamou para a conversa e me disse singelamente algo parecido com isto: “lembras que te falei do Gessy? Pois então, aquele joga muito, mas parece que não gosta do que faz. Então vou te falar desse amigo aqui. Esse joga, gosta do que faz e tem três coisas muito difíceis de juntar num jogador: categoria, humildade e caráter”. E completou: “este é meu amigo Bem-te-vi”.
“Bem-te-vi!”. Claro que achei engraçado, mas depois lembrei que tinha o Canário, o Gorrião, o Coruja e tudo ficou mais fácil. Meu pai não era muito de elogios, muito menos presenciais, e aquilo me pareceu muito significativo.
Eu pouco sabia das coisas da terra, porque praticamente só ouvíamos a Mayrink Veiga e a Radio Globo, do Rio. Sabia quem jogava no Vasco, Botafogo, Flamengo, Fluminense, América e Bangu, mas não sabia quem jogava no Ferro Carril. A partir daquele dia, no entanto, passei a acompanhar os passos daquele guerreiro. Soube da injusta avaliação feita pelo Grêmio, anos atrás, de que aquele jogador que tinha o fôlego de poucos, que cabeceava como poucos e que jogava de cabeça sempre erguida, buscando as melhores alternativas no jogo, fosse julgado incapaz de continuar no time. Logo ele, que não parava em campo e quando a bola chegava aos seus pés, algo de bom estava sempre prestes a acontecer. Mas não era uma época fácil para o tricolor. Bem-te-vi ficou em Porto alegre entre 1951 e 1953, quando retornou à sua terra para jogar no Ferro Carril, e as coisas boas no Grêmio só voltariam a ocorrer a partir de 1956. Ainda assim, meu time campeoníssimo do Grêmio dos anos 60 tinha Bem-te-vi e Milton no meio de campo.
Meu pai, o velho Portella era do ofício. Fora um grande jogador, dizem. Soube por amigos, de alguns convites que recebera para jogar aqui e ali, inclusive no Rio, junto com o Chico. Segundo ele, não foi porque ficava tudo muito longe de Uruguaiana. Tivesse tido mais tempo, haveria de ser convencido pelo escritor Dr. Fernando Silva Filho que o que fica longe é Uruguaiana.
Sou um apaixonado por futebol, herança de alguém que parecia enxergar o campo com dezenas de olhos. E dele também herdei a admiração e o carinho por esse homem, que a minha cidade está demorando a prestar a justa homenagem: João “Bem-te-vi” Mello da Cunha, 83 anos.
Como dizia o velho Portella, e acho que muitos que o conhecem também pensam isso, alguém com categoria, humildade e caráter. Acima de tudo um cidadão, e que um dia calçou chuteiras para honrar a classe e mostrar o quanto esse esporte também é nobre.

Nenhum comentário:
Postar um comentário