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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

POOH


Os anos 60/70, para quem teve a doce aventura de ser jovem por lá, foi um tempo de transformações de costumes e comportamentos. Cabelos da gurizada desceram costas abaixo; saias das meninas subiram 4 dedos gordos acima do joelho. Tecnicamente, engordados no cós, após a primeira esquina longe das casas.
Na música, por aqui a Jovem guarda, e na internacional, a chamada "Invasão britânica" ao solo e tímpanos americanos, que depois ganhou o mundo. O som estridente das guitarras, somado aos exercícios de improvável controle motor dos bateristas prevaleciam. E ganhavam espaços íntimos, as baladas italianas paridas do Festival de San Remo, sentidas, sofridas como letra de tango, mas adocicadas, que amoleciam corações e sacudiam hormônios. Há em todos, tenho certeza disso, dezenas de intérpretes e cações italianas gravadas em memória permanente (ROM) no hipocampo. Basta não cozinhar na primeira fervura.
"Pooh"é uma banda italiana fora da curva, uma vez que os gringos da "bota" sempre preferiram invadir o mercado em carreiras solo. A banda, no estilo pop/progressiva, nasceu em Bolonha, no ano de 1966, e vendeu mais de 100 milhões de cópias ao longo da carreira.
O nome Pooh parece não querer dizer nada, no entanto, trata-se de uma homenagem ao fofo ursinho Pooh, da Disndey, nome sugerido pela secretária da gravadora. A banda, que antes se chamava de The Jaguars foi obrigada a trocar, uma vez que havia outra banda com esse nome. Os gringos acabaram gostando, porque era um nome curto, de boa sonoridade e, segundo eles, inspirava eternidade. E, de fato, eles ainda andam por aí, mais de meio século depois.

São pioneiros na inserção de tecnologia em suas apresentações, como  canhões a laser, e os primeiros a ter seu próprio sistema de iluminação, palcos desmontáveis, máquinas de fumaça e utilização de mixers. Foram revolucionários e ganharam oito vezes o Festival de San Remo. 

Alguns títulos são eternos, como "Tanta voglia di lei" .







terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

MISS SLOANE


Elizabeth Sloane não tem vida social. Toma anfetaminas, uma vez que não dorme e não tem trato pessoal, o que afasta relações de amizades. E eventualmente compra sexo para se desestressar, tendo o cuidado de manter a mesma parceria.

Elizabeth é uma lobista intransigente na perseguição de vitórias para suas propostas. Não tem ideologia política, credos ou ativismos. Seu lema é vencer custe o que custar; pise onde, no que, ou em quem ela tiver de pisar. E por sua influência e carisma, é disputada pelo meio político e agenciadores lobistas.

Miss Sloane, como é chamada, enredou-se, e foi chamada para depor no Congresso americano, a fim de responder sobre suas táticas nada ortodoxas, e que contrariavam os interesses de um segmento político. Esse segmento, lutava para implementação de um projeto de lei sobre o uso de armas, e já havia tentado cooptá-la para a causa, mas acabou sendo ridicularizado por ela, que pretendia defender um projeto contrário. Eis porque se enredou. Sua vida pessoal, seus pontos fracos, foram expostos, e ele teve de contra-atacar da forma mais dura possível. Miss Sloane, não sairia perdendo de graça. Não sem chutar o pau da barraca e complicar meio mundo.
No encerramento da audiência no senado, tomou a palavra e admitiu métodos escusos, disse que sabia que seria atacada implacavelmente, com o avanço do seu projeto, porque tinha uma colaboradora trabalhando na concorrência; Que usou escuta clandestina registrando o senador Sperling, seu algoz no processo, aceitando suborno do chefe da outra empresa de lobby.

Foi presa, arruinou a carreira, mas acabou com a concorrência e com o senador. No entanto, o filme encerra com ela saindo da prisão, tranquila e com o mesmo olhar gelado e atento.

Bom filme. Bom de ver o embate entre o premiado John Lithgow (senador Sperling) e a maravilhosa Jessica Chastain dando vida à miss Sloane que, como costuma fazer, toma conta do pedaço.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

CUBA LIBRE



 juventude dos anos sessenta/setenta tinha poucos vícios. A que eu vivi não bebia, e quando fumava, os poucos, era na base do Elmo sem ponta ou Colúmbia. Pura marra, afinal não havia um mocinho nos cartazes de Hollywood. que não figurasse com um cigarro pendurado nos beiços. Saíamos à noite, de sexta a domingo, muito a fim de nos esfoguetearmos nos bailes ou reuniões dançantes, e depois percorrermos o saldo de madrugada em busca de alívio, onde houvesse uma luz vermelha e onde alguma tresnoitada companheira de ocasião pudesse nos receber em troca de uma inocente cuba libre. “Paga uma cuba, bem?”. Pois é: Cuba libre! Mas livres éramos nós, e nem precisávamos dizer isso.

Ao contrário do que pensávamos na época, esse nome de bebida não faz alusão à Revolução cubana de 1959, quando Fidel e Guevara derrubaram o sargentão proscrito Fulgêncio Batista. Vem de muito antes, e tão antes, que até o Estados Unidos estava lutando lado a lado pela libertação da ilha do domínio espanhol. A bebida não deixa de ser uma homenagem à união de dois companheiros de luta, hoje impensada: a imperialista Coca-Cola e o caribenho rum.

Cuba, porém, jamais chegou a ser libre. Se Batista, que já sucedera o caos, era capacho americano, Fidel vagou e enriqueceu, por inexplicáveis mais de meio século no poder, dividindo e amordaçando seu povo, à sombra de um mofado comunismo, sustentado por migalhas russas. Mesmo com a queda da cortina de ferro, pressão social pelos embargos americanos e condenando a população cubana à míngua, o regime se manteve. Com o afastamento de Fidel, primeiro para o lado e a seguir para os círculos de Dante, onde deve estar acertando as contas com as milhares de almas sacrificadas no paredón, a ilha passou a ser governada pelo meio-irmão Raúl, depois seu  sucessor Diaz-Canel e com a formação de um colegiado cúmplice, a fim de dar sustentação ao regime.  O próprio Fidel já havia alertado: “depois de mim, Raúl, mas ele não estará sozinho...”. Mas poderia dizer "après moi le deluge" (depois de mim o dilúvio - Luís XV / Mme. Pompadour). A absolutismo cubano, que fez ditadores ricos à custa do povo pobre, parece começar a fazer água e contar os dias para começar caída de la Bastilla. . 
Cuba, dizem, nunca deixou de ser um grande prostíbulo e, se tem essa vocação, que siga o seu caminho. Nunca deixará de ser bela, envazar o melhor rum e enrolar os melhores charutos. O PCC deles (Partido Comunista Cubano) continuará formando e exportando tecnologia de guerrilha e mantendo o povo encordeirado. Cá entre nós, entretanto, o ovo da serpente foi posto, adormece e choca sob o calor de assistencialismos nefastos, mentalidades anacrônicas, e vez por outra por alguma liderança estúpida pregando em favor daquela ditadura. Cabe a manutenção do olho arregalado, a fim de alertar os mais jovens para que não se deixem engravidar por ideais que não se sustentam  por si. 

Guevara teve talento, ou seja, morreu cedo.   Segue por ai como alma penada em busca da luz que talvez tenha tido e oferecido aos seus próximos, assombrando o cosmo, pousando vez por outra em ouvidos despercebidos e carentes, e se eternizando em tatuagens míticas juvenis, bonés e camisetas. Coisa de quem sabe pouco a respeito , assim como tem outros que tatuam a suástica, Hitler e o próprio anjo caído.   . 


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

REUNIÃO-DANÇANTE


 




segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

CHUVA E LÁGRIMAS



“Maio de 68” foi um movimento estudantil que começou em março, na comunidade de Nanterre, ao lado de Paris, que logo a seguir tomou a capital, depois a França e o resto do mundo.

Foi uma espécie de nova revolução francesa promovida por estudantes, esta de coloração roxo-hematoma, diferente da anterior que era vermelho-guilhotina. Baixaram o cacete na gurizada que questionava o autoritarismo nas universidades, a rigidez dos costumes, a Guerra do Vietnam e reivindicava reformas. E estava a fim de sexo, drogas e rock and roll. A polícia carregou as nuvens com gás lacrimogêneo e fez chover lágrimas. Eram tempos de moderna contestação social, cujo ápice foi o grande surubão de Woodstock, no ano seguinte. A revolta estudantil estimulou outras classes, provocando uma greve geral que parou a França, e cortou os pés do gigante De Gaulle que, impotente, renunciou em abril de 69.

Muitas obras surgiram do “Maio de 68”. Artigos, revistas, livros e filmes. Assisti a um de 2003, com a Eva Green chamado "Os sonhadores" e não gostei. Um   trisalzinho 
 meia boca em meio aos protestos, arremedo do outro chamado "Jules e Jim - uma mulher para todos", com 
a Norma Bengell, este sim, muito bom. E músicas, muitas. Até mano Caetano meteu um "proibido de proibir". Mas a música mais marcante, que os estudantes entoavam quase como se fosse um hino era "Rain and tears" (Chuva e lágrimas... Chuva mais gás lacrimogêneo), do grupo Aphrodite”s child (Filhos de Afrodite), ícone do rock progressivo, cujo vocalista era um egípcio enorme, de origem grega nascido em Alexandria, com uma voz marcante de improvável delicadeza. Linda, única e surpreendente, basta ouvir e confrontar a voz com a estrutura de onde ela saía. 

Artémios Ventouris-Roussos, ou só Demis Roussos, para seus amigos que dançavam na Reitoria, nos deixou em 2015, morrendo aos 68 anos. Foi ainda maior em carreira solo.
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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

AEROPORTO


 

Aeroporto, de 1970, não foi o primeiro filme-catástrofe, mas, penso que juntamente com "Inferno na torre", de quatro anos depois, é seguramente o mais popular e de recordes de bilheteria no gênero.

O elenco tem um time de peso, composto por figuras carimbadas e premiadas do álbum hollywoodiano da época de ouro: Burt Lancaster, Dean Martin, Jean Seberg, George Kennedy, Helen Hayes, aa passageira idosa clandestina, oscarizada pelo papel, Van Heflin e... Jacqueline Bisset, com 26 aninhos em seu quarto filme, e que patrocina com o capitão Dean Martin, o lado romântico do caos.
Era para ser um voo tranquilo e de algumas comemorações, que sai de Chicago com destino a cidade eterna, Roma. Mas a bordo, a tripulação é informada que há uma bomba, levada por um terrorista velho e perturbado, Helfin, no último filme de sua carreira, e que viaja com a esposa. O comandante tenta retornar, em pouso de emergência, no entanto, além da cidade estar em sofrimento sob uma monumental nevasca, a equipe de terra não consegue dar suporte por ter a pista bloqueada por outra aeronave. Um microcosmo tenso e desesperador, cheio de impossibilidades, por quase duas horas. Não tem como não estar dentro daquele avião suando frio.
Porém, além de ser um filme muito bem feito e de atuações memoráveis, tem algo especial na obra: a música. Airport Love Theme, uma joia de Alfred Newman e imortalizada por Vincent Bell. É simplesmente inesquecível, e perpassa os tempos como trilha sonora de eventos especiais. Ouça e viaje sem bombas e nevascas!

Pelo sucesso, o filme recebeu três sequências até 1980, com o Concorde, mas sem o mesmo charme.

sábado, 20 de dezembro de 2025

CORPOS ARDENTES



Quando um franco atirador noturno, desses que chegam aos ambientes mormente de poucas luzes, espalhando ao léo chumbo com o olhos, encontram a caça certa, ou supostamente certa, significa que aquelas poucas luzes noturnas serão  estendidas até serem engolidas pela luminosidade do sol.  

No mais das vezes tudo se resolve com um banho e um "até...". No entanto, por trás de uma "tal caça certa" pode estar outro caçador, e o que era para ser fugaz e agradável, torna-se uma bomba química de resultados imprevisíveis.

Corpos ardentes fala sobre o link maldito entre Ned (John Hurt), um advogado de porta-de-cadeia, notívago e fracassado, e o poço de sensualidade, e na trama embaixadora do anjo caído na Flórida Kathleen Turner. Matty (Turner) é casada com um ricaço, mas não consegue tirar o pé da lama. Leva uma vida dupla e tem planos. Em uma de suas tantas mariposeadas noturnas colidi com Ned, a terra teme e os colchões se incendeiam. E a caçada inverte.

Ned é abduzido pelas redondices e reentrâncias da bela e manipuladora Matty Obcecado pede ajuda a um de seus clientes criminosos para dar um fim no marido da moça, fugir com ela e viverem felizes para sempre com o dinheiro do de cujus. Dá tudo errado e o nosso Ned, que antes flertava com o fundo do poço, leva uma bola nas costas e acaba metros abaixo do fundo.

O filme é de 1981 e um clássico de temática é atemporal. Ademais, sempre é bom lembrar quem foi Kathleen Turner antes que a artrite tivesse, cedo demais, feito o estrago que fez. Uma pena.
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domingo, 14 de dezembro de 2025

AMOR SEM FIM



Em 1981, Lionel Richie já planejava deixar a maravilhosa banda "The Commodores". Mas ainda como componente da banda, lançou em dueto com Diana Ross o single "Endless Love". Um diálogo de amor declamado sob acordes, que foi repetido ao longo do tempo por outros duetos, alguns com igual encantamento, nunca superior ao deles. Com dois "monstros" vocalizando uma música que foi considerada pela Billboard, revista especializada na indústria fonográfica, como o maior dueto musical de todos os tempos, a glória eterna estava garantida.

Essa música está umbilicalmente ligada a um filme homônimo, também de 1981, com a nossa eterna Brooke Shields, e suas duas lagoas azuis entre cílios. Um filmezinho oitentista, meio piegas, cujo tema remete às duas famílias veronenses e shakespearianas Montencchio e Capuleto. O filme teve outra versão em 2014, que manteve a trilha. Ambos são melhores apenas ouvidos.

Ano seguinte Lionel criou coragem e foi viver sua carreira solo, nos brindando com obras do quilate de ""Hello" , "Say you, say me" e vasto repertório que lhe rendeu o faturamento sobre mais de 100 milhões de cópias vendidas.
Sempre que ouço "Endless.." me vem à cabeça outra obra prima da forja romântica: a música "Eu te amo", do Chico Buarque, por uma questão inversamente singular. "Endless love" é muita melodia para pouca letra; "Eu te amo" é muita letra para pouca música e pouquíssima voz.
Enfim... Eles que são gênios que se entendam. Eu só curto e compartilho.

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quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

SOLITUDE

 


sexta-feira, 28 de novembro de 2025

THE MCCOYS



Não há um registro oficial a respeito, apenas uma desconfiança no Rock N’ Roll World de que The McCoys tenha sido a precursora das bandas de garagem.

É um grupo nascido em Indiana-US, em 1962, que viveu apenas sete anos (62-69), mas deixou, além do conceito, uma música que se eternizou. Penso que seu único sucesso, que vive até hoje, ao menos na minha playlist é “Hang on Sloopy”. Uma canção de 1964 escrita por Wes Farrell e Bert Berns. A canção tornou-se um clássico para bandas de garagem, e a versão com os guris de Indiana foi a mais bem-sucedida, alcançando o primeiro lugar na parada de singles dos EUA em 1965.

Essa canção foi adotada pela Universidade de Ohio e é a balada oficial do rock de Ohio. Por aqui teve uma versão, tão simplesinha quanto a original, mas que também marcou época: "Pobre menina", Leno e Lilian.
The McCoys criaram uma relação próxima com os Beatles e chegaram a participar do filme “A Hard Day's Night”, tocando “Hang on Sloopy”. A cena, no entanto, foi sacrificada pelos cortes.
Depois do fim, tentaram ressuscitar nos anos 70, mudando seu nome para Johnny Winter And, buscando nova identidade musical tocando blues rock. Porém não conseguiram emplacar.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

THE BEACH BOYS

 


Sim, se faz banda em família. "The Beach Boys", os fantásticos californianos que conseguiram realizar o casamento duradouro entre o rock e o surf, lá no comecinho dos anos 60 tinham, no seu formato original e, para o meu gosto o mais produtivo, quatro irmãos e um primo. Foi uma banda que bateu de frente e fincou bandeira, com a Invasão britânica de 64, capitaneada pelos Beatles.

Irmãos, porém, a gente sabe, brigam, e 18 formações depois, entre tapas, beijos, overdoses e óbitos, ainda estão de pé, fazendo uma turnezinha aqui outra ali. Por vezes tentam reunir o que sobrou da versão original do grupo, um resgate do legado, mas fica na promessa.

The Beach boys foram, ou ainda são, um coquetel pop. Tocavam de tudo: rock, jazz, flamenco, faziam incursões em música erudita com arranjos especiais, sob a batuta genial de Brian Wilson, líder do grupo. E falo propositalmente no passado porque, a despeito da coragem e bravura de se manterem até hoje na estrada, o passado é o que tem de melhor.

De tudo que criaram destaco, pela memória afetiva, "Don't Worry Baby"

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

SUMMER OF LOVE



Verão do amor (Summer of Love) foi um movimento pela paz iniciado na primavera de Nova Iorque, em 1967, que tomou rumo do mundo. Um fenômeno social contra a guerra do Vietnam, que arrebanhou a elite cultural. Artistas, e em especial ativistas da comunidade "Make love, not war ". Foi um evento urbano, limpinho, de banho tomado e arrumadinho, sem sexo e drogas, mas não dá para apostar. Acho que foi precursor do embarrado surubão de Woodstock que aconteceria dois anos depois, o que não invalida os motes, muito pelo contrário.

Algumas canções fizeram coro às manifestações, como uma espécie de hino pop. "San Francisco (Be Sure to Wear Flowers In Your Hair)", cantada por Scott McKenzie é a principal delas. Outra que fez parte da trilha e se expandiu foi "A Whiter Shade of Pale", o primeiro single da banda inglesa Procol Harum, lançada concomitante ao movimento.
Essa música, "A Whiter...", passou a fazer parte da vida das comunidades envelhescentes do mundo. Não há quem não tenha uma história em que ela não esteja como trilha sonora. É um clássico ´pop, intimista e foi considerada por um desses institutos especializados, não sei qual, como a música mais bonita de todos os tempos. É uma questão de gosto, mas foi gravada por diversas vozes, inclusive pelo nosso Timóteo, e é das poucas que ultrapassou a marca de 10 milhões de cópias vendidas.

Guerras não faltam; nunca faltaram, e assim será Per omnia saecula saeculorum. Falta agrupamentos de pessoas, esses privilegiados pela vida e que formam nichos, com o sentimento daquela geração transformadora que foi capaz de protestar com a suavidade de "Summer of love". Hoje até shows musicais são discricionários e estimulam ódio.




BADFINGER





A toada melancólica desses guris não foi à toa. Tinham tudo e mais um pouco para dividirem com seus compatriotas de Liverpool, o protagonismo pop dos anos 60/70. Os Beatles até duraram menos, mas escreveram a bíblia pop como banda e seguiram adiante apartados.

Badfinger foi criada em 1965, no País de Gales, tendo estourado nas paradas logo de cara, sendo a primeira a fazer parte do selo Apple, dos Beatles. Voaram alto, muito além do que supunham, e mais do que muitas outras bandas midiáticas da época imaginaram. Entretanto, a falta de uma liderança centrada e minimamente capacitada a lidar com o resultado financeiro do seu sucesso, jogando a gestão totalmente nas mãos de empresárias nada escrupulosos, não permitiu que o sucesso se firmasse.
Duas lideranças perturbadas e depressivas, acabaram em um coquetel trágico que misturou álcool, drogas e dívidas, levando ao suicídio o líder Peter Ham, em 1975, com 27 aninhos. E a pá de cal com o suicídio da outra liderança em 1983, do seu segundo líder Tom Evans, aos 36 anos.

Foi uma banda maravilhosa, precursora do estilo power pop, personalística, de melodias perfeitas para as festas das sextas-feiras. O dedo do destino, no entanto, não contribuiu. Dedo ruim. Badfinger.

Mas alguns ainda andam por aí, curtindo o legado, sob a sombra trágica do que quase foram.





TRANSFORMERS POP



Quando a Capitol Records lançou "I Want To Hold Your Hand" dos Beatles no final de 1963, depois de uma pesada campanha de marketing, a música pulou para a primeira colocação das paradas estadunidense. Então os Beatles viajaram para os Estados Unidos pela primeira vez. A histórica aparição do grupo no The Ed Sullivan Show na noite de 9 de fevereiro de 1964, alcançando então a maior audiência televisiva da história é vista por muitos como o marco zero da Invasão Britânica.
No anos sessenta e na década seguinte, familiares conservadores, na época todos eram, lutavam bravamente para impedir a avalanche juvenil que vinha implacável montanha abaixo, derrubando os tais "bons costumes". Os cabelos da gurizada cresciam transpondo os ombros; as saias do colégio subiam quatro dedos gordos acima do joelho, depois da primeira esquina, e os namoros tendiam a ser, como dizer... um pouco mais invasivos. As frágeis barreiras que haviam não mais podiam controlar os gametas, e cada um fazia a sua Woodstock com o que tinha à mão. E estas, as mãos, jamais se encontravam quando nas despedidas de portão.

Os gritos de liberdade eram acompanhados pelos tweeters das caixas de som; agudos de guitarra e coisa e tal, e as luzes antes claras ou no máximo difusas, passaram a estroboscópicas e negras.

Foi uma geração transformadora e não me permito, agora na qualidade de envelhecente, me posicionar a favor de censuras, mesmo as que possam eventualmente me causar algum desconforto. As que me tocam, direta ou indiretamente faço de conta que nem são comigo. Deixo para me aborrecer quando implantadas.

Décadas mágicas. Viver por lá foi uma festa.
ORIGINAL

sábado, 8 de novembro de 2025

ALFONSINA


 

Alfonsina Storni nasceu na Suíça e aos quatro anos mudou-se com os pais para a Argentina. Em 1901, ainda criança, a família fixou-se em Rosário, sempre com severas restrições financeiras. Alfonsina então se jogou no trabalho, atuando como operária, professora de costura e atriz. A poesia doía na alma poética desde sempre, mas vertia apenas como catarse.

Com 43 anos descobriu um câncer de mama. No estágio em que foi identificado e com os recursos da época, nada mais poderia ser feito. Então resolveu tomar o caminho que um ano antes, quando também diagnosticado com câncer, o escritor uruguaio Horacio Quiroga tomou: suicídio. A diferença, talvez porque Quiroga fosse um homem sorumbático e trágico com a vida, foi a forma. Ele tomou cianeto, Alfonsina caminhou vagarosamente em direção ao mar e se deixou engolir por ele. O ano era 1938, e três dias antes de se suicidar, ela envia de um hotel de Mar del Plata para um jornal, o soneto “Voy a Dormir”. E foi.

Ariel Ramírez, autor da Misa criolla, compôs também o tributo musicado em homenagem a ela, cuja letra e melodia jorram de dor e devem ter ajudado a salgar a costa Argentina. Ele não conheceu Alfonsina, mas inspirou-se em sua história, que lhe fora contada pelo pai, de quem ela tinha sido aluna.

"Pela branda areia que lambe o mar
Sua pequena pegada não volta mais
Um caminho solitário de dor e silêncio chegou
Até a água profunda
Um caminho solitário de dores mudas chegou
Até a espuma"

Mercedes Sosa eternizou a canção, mas ... Nana Mouskouri, a diva que já gravou em 15 idiomas, dos quais sete fala fluentemente; que depois de Dalida é quem mais vendeu discos na França, e que junto com Michelle Pfeiffer divide o lado leste do meu coração, a internacionalizou. Quando ouço, quase me afogo.




quarta-feira, 5 de novembro de 2025

𝐇𝐎𝐌𝐎 𝐇𝐎𝐌𝐈𝐍𝐈 𝐋𝐔𝐏𝐔𝐒



Pelas paredes do velho e querido Colégio União havia quadros com provérbios em latim, fato que nos obrigava a pesquisar seus significados no Google de então, também conhecido como Delta-Larousse. Entre os provérbios, o mais intrigante deles: 𝙎𝙞 𝙫𝙞𝙨 𝙥𝙖𝙘𝙚𝙢 𝙥𝙖𝙧𝙖 𝙗𝙚𝙡𝙡𝙪𝙢 (se queres a paz, prepara-te para a guerra).

Custava um pouco a fixar em cérebros virgens tamanha ambivalência. No entanto e com o decorrer do tempo, a maturidade sendo exposta diariamente à estirpe de Caim que carregamos, passou a fazer todo o sentido. Bismark (aquele que não conseguiam afundar) também teria dito algo assim: 𝙙𝙞𝙥𝙡𝙤𝙢𝙖𝙘𝙞𝙖 𝙨𝙚𝙢 𝙖𝙧𝙢𝙖𝙨 é 𝙘𝙤𝙢𝙤 𝙢𝙪𝙨𝙞𝙘𝙖 𝙨𝙚𝙢 𝙞𝙣𝙨𝙩𝙧𝙪𝙢𝙚𝙣𝙩𝙤𝙨. Pois então.
E bem antes desses sábios falarem essas frases chocantes, Joãozinho Evangelista, lá no Novo Testamento, já avisava sobre 𝙤𝙨 𝙦𝙪𝙖𝙩𝙧𝙤 𝙢𝙖𝙩𝙪𝙣𝙜𝙤𝙨 𝙙𝙤 𝘼𝙥𝙤𝙘𝙖𝙡𝙞𝙥𝙨𝙚 que representam os nossos flagelos, normalmente puxados pelo alazão (guerra). A morbidez humana parece adorar esses bichos. Renegam a paz e conseguem transforma-la em um sentimento vazio, que não leva a nada, porque se esgota em si. Paz, enfim, vem a ser como um tempo de verbo, algo como presente do subjuntivo, longe de ser um futuro perfeito. Assim, só uma possibilidade. É uma triste ironia, mas fazemos da guerra uma necessidade em busca dela, da paz. E se realimentam nos ciclos e os ódios. O que Ghandi disse sobre a paz é revelador: 𝙣ã𝙤 𝙝á 𝙘𝙖𝙢𝙞𝙣𝙝𝙤 𝙥𝙖𝙧𝙖 𝙖 𝙥𝙖𝙯, 𝙖 𝙥𝙖𝙯 é 𝙤 𝙘𝙖𝙢𝙞𝙣𝙝𝙤. Caminho sim, só o caminho (cubierto de cardos), nunca a chegada. E só não desistimos dela porque sem ela não haveria mais guerras para buscá-la .
Ou seja, bacudo, de tempos em tempos, ou em quase todo tempo em alhures ou algures, como se dizia no castiço, é chumbo trocado para ver se, matando alguns, se sacia a sede que temos pelo sangue irmão. Matemo-nos, pois, no caminho da paz. Mas depois, de saco cheio dela, matemo-nos de novo.
Custei um pouco, mas entendi, querido Colégio União.

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

LEGO DISPERSO




Parece vaga a sonoplastia da guerra;
Distante, sem norte, aleatória, Um mundo onde a parte que cresce, E grande parte que se faz, Tem gosto e cheiro de morte.
Seres sem glória, de alma tóxica; Próximos fantasmas, Da face autofágica que padece, E se parte entre espasmos e preces, Triste, democrática e trágica. Cenário sujo de negro e cinza, E de iguais ruídos grisalhos.  Chão de plasmas intransfusos; Sangues tisnados, confusos Forjados na métrica do malho. Fator irmão, de mesmo Deus, De herança genética fragmentada
Formam polos teimosos de rancor; 
Que não são vagos nem distantes;
Que brotam entre nós a cada instante,
Mas a dor, que pulsa, mal sofremos.

Os cacos que se juntam não se ajustam, E o lego que era lógico se perdeu

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

ROMY SCHNEIDER

 


Rosemarie Magdalena Albach, nasceu na Áustria e morreu na França, aos 43 aninhos. Finou-se de dor e carência de estima. Está sepultada junto do filho David, morto aos 14 anos, com uma seta de portão espetada no peito, quando tentava pular um muro, um ano antes da morte dela.

Rosemarie, ou Romy Schneider tornou-se uma das damas do cinema dos anos 60/70, após dura batalha para descolar de si a personagem da mimosa imperatriz da trilogia Sissi. Formou com Alain Delon um dos casais ícones, nas telas e fora delas, por tudo o que representavam para a época, de glamour e beleza física.
Tinha um olhar encantador, de olhos únicos, meio mongólicos, da cor incerta do mar e de expressões variadas de acordo com o momento. Assim como o mar. Dos filmes, "O processo", do romance de Kafka, e "O assassinato de Trotsky" são ótimos e vale muito a pena serem vistos.
"A piscina", de 1969, também é bom, e tem um significa muito especial. Delon e Romy estavam divorciados havia seis anos, e ela estava casada com Harry Meyen. Algo deve ter acontecido nos bastidores durante as gravações que desagradou profundamente o marido dela. Tanto que, um tempo depois, divorciou-se. E mais adiante divorciou-se radicalmente também da vida, enforcando-se.
Consta que Romy jamais tenha elaborado o "pé" que levou de Delon. Acabou ficando mais depressiva após o suicídio do ex-marido, e desintegrou-se como gente com a trágica morte do filho adolescente. Ela já tinha retirado um rim, mas não abria mão dos coquetéis fatais de álcool e estimulantes. Matou-se assim, cedo demais e aos poucos, antes que o tempo fizesse a sua maquiagem macabra.
"A piscina" é um bom filme, e representativo pelas intercorrências que causou. E marca também a estreia de Jane Birkin. Aquela que depois foi gemer com a icônica "Je T'aime Moi Non Plus" junto a Serge Gainsbourg,

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

A CHAVE DE SARAH

Julia Armond ( Kristin Scott Thomas ) é uma jornalista americana, que vive em Paris com o marido francês e uma filha adolescente. Recebe a tarefa de seus editores de escrever uma matéria sobre a segunda guerra, enfiando o dedo na ferida da pátria, trazendo a furo o fato de que muitos franceses, em 1942, colaboraram com a ocupação nazista.

Coincidentemente, seu marido recebe como herança, um apartamento que, no período da guerra, abrigou uma história trágica. A casa pertencia à familia de Sarah, uma menina de 10 anos que vivia com os pais e um irmãozinho e que, por serem judeus, foram enviados aos campos de extermínio. Quando a polícia chegou, Sarah chaveia o menino em um armário, e não descansou enquanto não conseguiu fugir para libertá-lo. A chave se torna amuleto e grilhão.

Sarah cresceu sendo acolhida clandestinamente por uma família francesa, mas com os demônios da infância arrastando correntes em sua consciência. Quando completa 18 anos, muda-se para a América. Deixa um bilhete carinhoso e só volta a contatar a família benfeitora quando, tempos depois, dá conta de que está bem, casada e com um filho.

Julia, que por muitos anos tentara uma nova gravidez sem sucesso, acaba engravidando e enfrenta o nariz torcido do marido, de quem se divorcia. Torna-se obsessiva pela história e sai a caça de seus personagens ainda vivos. Publica sua matéria, mas ainda há coisas para descobrir. E encontra o saldo da vida de Sarah: seu filho William (Aidan Quinn). com quem tem uma primeira conversa desastrada, uma vez que o filho desconhecia o passado da mãe. Dois anos depois, Willian, já de posse da outra parte da história, consegue reunir-se com Julia, que vai ao seu encontro levando a filhinha.

Paro por aqui porque já cortei mais da metade do que tinha me proposto a escrever sobre esse filme. Fiquei muito tocado, a ponto de vê-lo duas vezes no mesmo dia. 𝐎 𝐟𝐢𝐧𝐚𝐥 é 𝐚𝐩𝐨𝐭𝐞ó𝐭𝐢𝐜𝐨. 𝐀𝐬 𝐟𝐚𝐥𝐚𝐬, 𝐨 𝐫𝐞𝐬𝐮𝐥𝐭𝐚𝐝𝐨 𝐪𝐮𝐞 𝐦𝐢𝐬𝐭𝐮𝐫𝐚 𝐚 𝐨𝐛𝐬𝐞𝐬𝐬ã𝐨 𝐝𝐚 𝐣𝐨𝐫𝐧𝐚𝐥𝐢𝐬𝐭𝐚 𝐞 𝐨 𝐚𝐦𝐨𝐫 𝐝𝐞 𝐦ã𝐞, 𝐞 𝐚 𝐢𝐦𝐚𝐠𝐞𝐦 𝐟𝐢𝐧𝐚𝐥 é 𝐝𝐞 𝐮𝐦𝐚 𝐬𝐞𝐧𝐬𝐢𝐛𝐢𝐥𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐟𝐨𝐫𝐚 𝐝𝐞 𝐩𝐚𝐝𝐫ã𝐨 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐨 𝐦𝐨𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐞𝐦 𝐪𝐮𝐞 𝐯𝐢𝐯𝐞𝐦𝐨𝐬.

Não percam! Convém reservar alguns lencinhos.