Hoje não é um dia especial. É apenas um dos 22.595 dias que se passaram desde a última vez que nos vimos. Também não se trata de um dia em que me lembrei dela. Não só lembro todos os dias, como converso com ela diariamente antes de dormir. Ela sabe.
Minha mãe morreu numa idade de chorar perdas. Foi seputada com uma idade de enterrar seus mortos: vinte e nove anos, há uma semana de chegar aos trinta. Não levou nada, porque nessa idade pouco se tem a levar, e o que ficou foi sepultado na enorme cova que deixou no peito dos condenados a amá-la para sempre, sem nunca mais poder vê-la. Viveu um lapso de vida de desfecho incompreensível; inesperado e absurdo, que produziu uma ferida sistêmica, autoimune, em um homem e em um projeto de homem. Tateamos por isso caminhos de penas, abrandadas pelas pegadas de luz que, não por acaso, mas por generosa, deve ter deixado cair. Por essas réstias sobrevivemos.
Agora nem tanto quanto antes, paro os olhos no tempo, não sei quanto. E não sei se o suficiente para desenhar seu jeito. Lembro então que existem ameixas pretas. vejo-as por ai, graúdas e lindas, talvez doces. Têm o preto, mas nunca terão o brilho e a doçura que ela tinha no olhar. A grande cascata que despencava em linha reta para além dos ombros, cor de piche, hoje talvez tivesse outro tom, ou uma variável de tons. Talvez já não fosse a grande cascata negra onde eu enroscava meus dedos infantis, mas ainda me lembro da sedosidade quase improvável para os procedimentos e cuidados da época.Paro um tempo, paro no tempo e paro lá longe, onde nem lembro mais, mas onde tenho certeza que vivi, porque é o endereço da saudade que realimento. Passados mais de meio século, ela continua batendo à porta do meu coração. Conversamos todas as noites antes que o sono chegue, agora já sem dor e queixas. E penso que dia desses, não já, ela virá trazendo tortas e biscoitos sabor de mãe, para o abraço de, enfim, juntar as peças.
