Até conhecê-los, eu chamava os grupos musicais de conjunto. Começaram com 4 integrantes (padrão), mas chegou a ter 13 componentes. Então aderi o "banda". KC and the Sunshine Band incendiava discotecas, bem como salões de luz negra e vermelha, dividindo os suadores com Donna Summer, Gloria Gaynor, Olivia Newton John e Bee Gees, entre outros tantos muito bem votados. Essa gurizada foi o primeiro grupo na história a colocar quatro músicas no topo das paradas da Billboard em um período de 12 meses desde os Beatles.
sábado, 22 de agosto de 2026
KC AND SUNSHINE BAND
domingo, 9 de agosto de 2026
HOY SOY TU SILENCIO
Disseste-me uma vez: “se tiver chance, não desiste, mas não dá soco em faca de ponta”. Não me lembro de que se tratava, mas independente do que fosse, continuo mantendo como verdade. Passei um naco de tempo desistindo das coisas, mas não sem antes tentar muito para ver se davam certo. Portanto, essa foi uma coisa que aprendi.
E também repetias, premonitoriamente: “a gente é o pai, que foi como filho”. Hoje não tenho dúvidas disso porque, ao sermos talvez os únicos pais que admitem nunca terem aprendido essa função, estaríamos nos consolando mutuamente. Mas vezes também não me dizias nada, apenas sacudias a cabeça, vertical ou horizontalmente, aprovando ou reprovando alguma coisa que eu fazia.
Não foi fácil lidar comigo. Eu sei disso, mas tu sabias muito mais. Sabias porque foste o precursor de uma dinastia inteira, que se caracteriza por ter o beiço mais duro que matungo de quartel. Certa vez te ouvi dizendo a um amigo: “não adianta, esse é meu filho. O beiço não nega”. Não há orgulho nenhum nisso. Ao contrário, acho que há muito a lamentar, em especial o preço... Ah, o preço... caro demais. Paciência, que se cumpra a sina. A história já está quase toda contada e daqui a pouco irá para a estante. .
Orgulho tenho, entretanto, por ter convivido contigo, lamentavelmente por pouco tempo; por poder dizer por ai que sou filho de um cara singular, que brilhou quando quis; no que sabia fazer, e que depois deixou pra lá, porque sabia como poucos o quanto o brilho é sensível, fugaz e ilusório.
Hoje seríamos quase contemporâneos, contando a idade da tua partida. Amigos, muito amigos, certamente. Não nos sentaríamos no bar, porque tu não bebias e eu não gosto de beber sozinho, mas procuraríamos uma arquibancada para travarmos severa discussão sobre futebol. E não adiantaria nada tentarmos convencer um ao outro, afinal, somos Portella, e isso basta para que não haja acordo.
Beijo, velho.
terça-feira, 4 de agosto de 2026
SEMPRE ESTIVEMOS JUNTOS
Hoje não é um dia especial. É apenas um dos 22.595 dias que se passaram desde a última vez que nos vimos. Também não se trata de um dia em que me lembrei dela. Não só lembro todos os dias, como converso com ela diariamente antes de dormir. Ela sabe.
Minha mãe morreu numa idade de chorar perdas. Foi seputada com uma idade de enterrar seus mortos: vinte e nove anos, há uma semana de chegar aos trinta. Não levou nada, porque nessa idade pouco se tem a levar, e o que ficou foi sepultado na enorme cova que deixou no peito dos condenados a amá-la para sempre, sem nunca mais poder vê-la. Viveu um lapso de vida de desfecho incompreensível; inesperado e absurdo, que produziu uma ferida sistêmica, autoimune, em um homem e em um projeto de homem. Tateamos por isso caminhos de penas, abrandadas pelas pegadas de luz que, não por acaso, mas por generosa, deve ter deixado cair. Por essas réstias sobrevivemos.
Agora nem tanto quanto antes, paro os olhos no tempo, não sei quanto. E não sei se o suficiente para desenhar seu jeito. Lembro então que existem ameixas pretas. vejo-as por ai, graúdas e lindas, talvez doces. Têm o preto, mas nunca terão o brilho e a doçura que ela tinha no olhar. A grande cascata que despencava em linha reta para além dos ombros, cor de piche, hoje talvez tivesse outro tom, ou uma variável de tons. Talvez já não fosse a grande cascata negra onde eu enroscava meus dedos infantis, mas ainda me lembro da sedosidade quase improvável para os procedimentos e cuidados da época.Paro um tempo, paro no tempo e paro lá longe, onde nem lembro mais, mas onde tenho certeza que vivi, porque é o endereço da saudade que realimento. Passados mais de meio século, ela continua batendo à porta do meu coração. Conversamos todas as noites antes que o sono chegue, agora já sem dor e queixas. E penso que dia desses, não já, ela virá trazendo tortas e biscoitos sabor de mãe, para o abraço de, enfim, juntar as peças.
