"Devo ter chorado quando criança, como qualquer criança, mas não me lembro. E agora... Que o Velho me poupe de dores que motivem"
Quando a gente completa cinqüenta anos convém uma pausa para reflexões. Meio século não é pouca coisa. Já nos sessenta, nos dizem que passamos a viver no amarelo piscante. Todo cuidado é pouco. Sessenta anos atrás, ter sessenta era ter idade de vovô longevo, com direito a pantufas, cadeira de balanço, mimos e rabugices. Hoje sexagenários são “envelhecentes”, alguns de academia, disputando espaço com “bombadões” formados a ferro e sofismas químicos. E a partir dos setenta é tudo dividendo, renda passiva recorrente, porém dolorida e de cuidados redobrados.
É bom ultrapassar essa barreira. A alternativa é pior, embora tenha amigos, conhecedores por esperança e fé de outros planos, que me dizem haver um lugar melhor além a vida. Contraditoriamente, no entanto, dão um duro danado para não serem chamados pelo Criador para a última sabatina.
Minhas passagens de tempo são reflexivas. Trago junto refluxos de um lamento antigo pela mãe que se foi ainda com idade de filha. Por melhor que tenha elaborado essa perda, viajo à toa. Perco os olhos por ai, buscando o esboço mais preciso da mulher linda e suave que nunca esqueci, e recorro às sua fotos para recriar seus jeitos. Jeitos que se confundem com o de todas essas que vieram e que se foram da minha vida, e o dessas outras tantas que ficaram aconchegadas no meu desarranjado berço edipiano.
Os aniversários sempre acusaram essa ausência. Do olhar materno; do amor que a mulher dedica ao filho, seu homem definitivo na obra mágica em que ela brinca de Deus criando a vida. Faz falta a torta de bolacha sabor-mãe, do cheiro de lavanda no ar e de seus arranjos modestos, mas caprichosos na mesa. Lamento por não ter tido a chance de vê-la em outras mesas, enchendo balões de festa de netos e bisnetos. Enfim, é dela, que papai do céu levou tão cedo, que mais me lembro nesses dias.
O preto com que foi pintado um terço da minha vida veio paulatinamente desbotando, acompanhando o tom dos cabelos. Não sofro mais com isso e já não me engasgo enquanto busco fôlego para soprar velinhas. O tempo acabou desmanchando a camada espessa da dor da alma, e as do corpo de hoje me bastam.
É bom ultrapassar essa barreira. A alternativa é pior, embora tenha amigos, conhecedores por esperança e fé de outros planos, que me dizem haver um lugar melhor além a vida. Contraditoriamente, no entanto, dão um duro danado para não serem chamados pelo Criador para a última sabatina.
Minhas passagens de tempo são reflexivas. Trago junto refluxos de um lamento antigo pela mãe que se foi ainda com idade de filha. Por melhor que tenha elaborado essa perda, viajo à toa. Perco os olhos por ai, buscando o esboço mais preciso da mulher linda e suave que nunca esqueci, e recorro às sua fotos para recriar seus jeitos. Jeitos que se confundem com o de todas essas que vieram e que se foram da minha vida, e o dessas outras tantas que ficaram aconchegadas no meu desarranjado berço edipiano.
Os aniversários sempre acusaram essa ausência. Do olhar materno; do amor que a mulher dedica ao filho, seu homem definitivo na obra mágica em que ela brinca de Deus criando a vida. Faz falta a torta de bolacha sabor-mãe, do cheiro de lavanda no ar e de seus arranjos modestos, mas caprichosos na mesa. Lamento por não ter tido a chance de vê-la em outras mesas, enchendo balões de festa de netos e bisnetos. Enfim, é dela, que papai do céu levou tão cedo, que mais me lembro nesses dias.
O preto com que foi pintado um terço da minha vida veio paulatinamente desbotando, acompanhando o tom dos cabelos. Não sofro mais com isso e já não me engasgo enquanto busco fôlego para soprar velinhas. O tempo acabou desmanchando a camada espessa da dor da alma, e as do corpo de hoje me bastam.
Mas eu sei, mais por esperança que por fé, que em algum lugar do cosmo ficou dela uma energia boa conectada ao meu destino. E sou, ou me sinto plenamente iluminado pelo rastro de luz que a trouxe até nós. O mesmo rastro que a levou de volta assim, cheio de pressa, como uma improvável estrela ascendente.

