ARRANCHADO
Como há beleza na dor! Não é um exagero, acho que não, dizer que sem dor não há poesia. A beleza, por si já dói, dói na proporção de não podermos aprisioná-la ou possuí-la..
O poeta sente a dor comum, a de alguém, a do mundo, e a torna sua. Apropria-se dela para que sangre, e desse sangue passe a pintar seus horizontes incertos. E quanto mais rasgada a alma, seja por amor, seja por falta dele, mais sangrento são os seus versos. Porém, trazem à tona o que de melhor temos por dentro: a sensibilidade.. Do obreiro a quem admira a obra, pálido de espanto..
Há muita coisa linda; muita letra maravilhosa por aí. Mas eis que, em um dia qualquer modorrento e cervejado, enquanto a costela choramingava lágrimas de gordura sobre as brasas, alguém pega um violão e começa a tocar uma música, nem tão nova, nem tão antiga, e dedilha, declamando a letra.
“...𝐔𝐦 𝐥𝐮𝐳𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐢𝐦𝐚𝐠𝐢𝐧á𝐫𝐢𝐨
𝐍𝐚 𝐪𝐮𝐢𝐧𝐜𝐡𝐚 𝐝𝐞 𝐮𝐦 𝐜é𝐮 𝐧𝐮𝐛𝐥𝐚𝐝𝐨
𝐕𝐚𝐢 𝐚𝐩𝐚𝐫𝐭𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐫𝐞𝐛𝐚𝐧𝐡𝐨𝐬
𝐃𝐞 𝐟𝐮𝐦𝐚ç𝐚 𝐧𝐨𝐬 𝐭𝐞𝐥𝐡𝐚𝐝𝐨𝐬
𝐄 𝐮𝐦𝐚 𝐬𝐚𝐮𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐝𝐞 𝐧𝐨𝐢𝐯𝐨
𝐃𝐞 𝐜𝐚𝐦𝐩𝐨 𝐞 𝐛𝐞𝐫𝐫𝐨 𝐝𝐞 𝐠𝐚𝐝𝐨...”
Foi quando troquei a cerveja e fiquei bebendo “𝐧𝐨𝐬𝐭𝐚𝐥𝐠𝐢𝐚𝐬/ 𝐃𝐞 𝐬𝐚𝐧𝐠𝐚, 𝐩𝐢𝐭𝐚𝐧𝐠𝐚 𝐞 𝐯𝐞𝐧𝐭𝐨/ 𝐒𝐞𝐬𝐦𝐚𝐫𝐢𝐚𝐬 𝐝𝐞 𝐬𝐚𝐮𝐝𝐚𝐝𝐞/ 𝐍ã𝐨 𝐜𝐚𝐛𝐞𝐦 𝐧𝐨 𝐚𝐩𝐚𝐫𝐭𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨”. Um coice nos peitos!
“Arranchado”, uma canção linda; terna, dolorida, ruminando uma saudade conjugada em três tempos: pretérito imperfeito, presente do subjuntivo, e que estaciona no meio do futuro do pretérito. Os motes sugerem uma dor e a revelação de um sonho frustrado. É de 1985, acho que originalmente cantada por Cesar Passarinho, da lavra de Armando Vasques, junto com um amigo querido, que mora no meu coração de graça, Valdir Santana. .
Pois Armando e Valdir vão viver arranchados cá por dentro enquanto eu viver e minha alma puder voejar sobre os campos cobertos de rosetas das planícies do pampa, ouvindo suas violas. Dançarei solito ou empernado com lembranças caras. E quando nos formos daqui... Ah... Que nos aguardem os ombros dos seres assexuados, não sei se lá de cima ou lá de baixo.
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