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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

UM OLHAR CALIBRE 12




Lendas "sharpeanas 3"

O grupo comercial fora jantar em uma churrascaria. Fazia aquilo seguidamente no mesmo local, com ou sem motivo. Havia algumas ausências, mas uma em especial chamou a atenção pela reincidência.   O colega faltante havia confirmado, mas na última hora cancelou em função da desconfiança da esposa, que não compreendia a necessidade do marido participar de tantas jantas.

Subserviente, e conhecendo o temperamento da esposa, acatou.  Entretanto, tinha a necessidade de provar a veracidade daqueles encontros e certamente justificar outros tantos. Com isso convidou-a para jantar na mesma churrascaria.

Todos a postos, conversando, contando piadas novas e antigas, mas que potencializadas pelo ambiente e algumas cervejinhas sempre seriam engraçadas. Súbito chega o casal (ah, esses incautos colegas). Um leve e formal aceno ao grupo, e o colega sentou-se afastado, sequer olhando  à mesa, uma vez que ficara de costas. No fundo ele temia por ter desafiado os astros. Sabia  que não se podia confiar neles.

Mas não haveria de ficar assim, ah, mas não ficaria mesmo. Não para um grupo que se orgulhava da grande competência, tanto para vender como para zoar. Alguém chamou o garçom e fez uma recomendação: ”entrega este bilhete para o nosso colega que está naquela mesa. Mas não diz quem mandou. Entrega e te manda”. E ele assim fez.

Tão logo recebeu o  colega abriu, gelou, congelou, branqueou e amassou o bilhete, que foi imediatamente desamassado pela esposa. Nele estava escrito mais ou menos o seguinte: “querido, jamais pensei que viesses com a outra na nossa churrascaria. Isto é um adeus!”  A cena contínua foi de um casal indo embora, em pé de guerra. A mulher na frente fumigando, o marido atrás, com cara de súplica, menos quando olhou à mesa dos engraçadinhos.  Aquele era um olhar calibre 12, engatilhado por pensamentos maus.

No dia seguinte, muita expectativa pela reação do colega, mas a iniciativa dele chocou a todos: Uma carta de demissão. Claro, o pedido foi muito além da entrega de uma simples carta. Reuniu algumas poucas pessoas que se encontravam na filial naquele momento e fez um demorado discurso sobre lealdade, comportamento social, caráter, etc. Justo. Entregou a carta e foi embora.  

Foi um bom momento de conhecer a dor sentida por causa da dor causada. Era preciso fazer algo. Afinal há de se ressaltar que o colega efetivamente era um cidadão muito comportado. Nunca se soube de qualquer deslize seu. Assim, alguém foi encarregado de ir à residência do casal para as devidas explicações, desculpas e penitências. 

Não sem traumas, tudo restou resolvido, com a reversão da demissão e a reintegração do colega ao grupo de trabalho. Tudo resolvido não. Os participantes daquela fatídica noite, por não delatarem o redator do bilhete, jamais conseguiram desarmar aqueles olhos calibre 12, engatilhados de raiva.

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