Marilia, a namorada, e eu, saíamos do teatro
debatendo o que acabávamos de assistir. Mas não me lembro se foi "A ópera
do malandro" ou "Gota d'água", que o antigo Leopoldina levava.
Era 1980, portanto, tempo bom para andar a pé por Porto Alegre, a qualquer hora
das 24 disponíveis. E andamos bastante, falando cada vez com mais entusiasmo
sobre o que vimos. Eis que, em 1980, já não era mais tempo bom para andar a pé por Porto Alegre em determinadas horas. Dez da noite, por exemplo.
Passando sob um viaduto, três malandros, de posse
de bons argumentos para o crime, ou seja, revólver, faca e raiva, nos
abordaram. Com o primeiro “argumento” colado na testa e ou outro na garganta, entreguei
meu relógio e a carteira. Enquanto fazia a entrega, vi um dos malandros
arrastando a namorada para um cantinho mais reservado... Gelei. Tirei minha
jaqueta e couro novinha e meus sapatos, peguei a namorada de volta e fui embora
andando devagar, degustando cada passo com um tiro na nuca. Ora, Marilia era um
quindim e, a despeito do papo empolgado sobre teatro, no fundo, no fundo, eu
tinha planos para dali a bem pouco tempo. Mas não rolou. Não naquela noite
porque a flacidez tomou conta de todo minifúndio, no momento, improdutivo.
Em outro 31/08, eu estava em uma indústria,
acompanhando um funcionário que tinha reunião com o diretor financeiro. Era dia
de pagamento por lá. Portanto...
A porta de entrada eram duas folhas enormes de
vidro, meu colega estava de costas, e eu em frente ao balcão, apenas com o
casaco jogado sobre os ombros. Detalhe: eu tinha sacado uma boa importância que
deveria ser paga cash aos vendedores, e que estava distribuída nos bolsos.
Súbito o meu acompanhante entra em processo de voo, mas não decola, ao
contrário, se estatela no chão, dez passos além de onde estava. Virei para
olhar, enxerguei um cano de pistola e a primeira sentença "chão!" e
ouvi a segunda sentença, essa para o pessoal de dentro do balcão: "se
alguém tocar no telefone, eu apago ele!". Ok. Com um dos pés do sem
vergonha nas minhas costas e o cano do revólver brincando de vai-e-vem na minha
nuca, entrei em stand by. Sabia o que estava ocorrendo, mas era como num sonho.
Até que, não sei quanto tempo depois, alguém tocou no meu ombro. Como estava de
cara no chão, olhei de viés e vi um crachá. Ora, ladrões não usam crachás...
Então levantei, tateei os bolsos, tenso... tudo lá.
Eu estava leve como uma pluma, sorridente, de bom
humor, afinal, acabara de sair do estado alfa. E por óbvio que não havia mais
clima para reunião alguma, então, nos despedimos do pessoal e fomos embora. Entrei
no Passat do colega, sentei, respirei
fundo... Ao expirar, desceu o inferno contido. Tremi tanto que sacudia o carro.
Então disse ao colega "me deixa e casa e vai descansar. Por hoje
chega".
Bueno, às três horas da tarde eu fui encontrado
sorridente e estabilizado, sentado no sofá da minha sala, tendo ingerido meia
garrafa de estabilizador envelhecido em barril de carvalho.
Desafio a quem me conhece bem, que diga se eu marco
alguma coisa para esse dia. Aqui, ó!