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sábado, 31 de março de 2012

HAJA HOJE PARA TANTO ONTEM



O título é uma frase de Paulo Leminski
HAJA HOJE PARA TANTO ONTEM

Uruguaiana não é mais Uruguaiana. Certo que é mais bonita, mais moderna, mais quase tudo. Só não me parece tão romântica como foi um dia, mas isso não chega a me deixar contrafeito. O mundo é outro; a vida é outra e eu, mesmo que  Peter Pan vez por outra buzine nos meus ouvidos, já deixei de ser o guri do Portella há muito tempo. Então sem reparos ao que vejo quando chego.

Entretanto, as pessoas que vivem por lá, que caminham em suas calçadas, dançam em seus salões, correm por suas ruas; se cansam e descansam, o fazem sobre o imenso campo santo das minhas lembranças. Lá repousam sem féretro, minhas jóias preciosas infância e adolescência; lá acordei um dia, olhei ao redor enxergando só juventude e pensei “vou antes que viva eternamente  os efeitos colaterais dos dezoito anos, mas nem que seja em pó ou folha levada (Quintana), retornarei” .

Portanto, cuidado, conterrâneos. Cuidado ao arrancarem pedras das ruas que ainda não se hajam  impermeabilizado, pois poderão estar partindo um pedaço da minha lápide. Cuidado ao pisarem na tijoleta mal cuidada da calçada. Poderá derrubá-los. Mas de certo que não será somente a tijoleta. Caso seja em dia de chuva, algo de mim poderá cuspi-los até o meio da perna e isso não será um mero acaso. Cuidado moças ao dobrarem qualquer esquina da Duque em dia de ventania. Em algum ponto, como alma penada eu estarei soprando, tentando levantar vestidos e desarrumar cabelos. Não por maldade ou nem tanto por isso, ou será que vocês acreditam que é só o Minuano que sopra naquelas esquinas? Eu morei na Duque. 

Em cemitérios enterram-se saudades, e nada pode ser maior do que as minhas. 

Cada vez que vou a Uruguaiana faço um download  de alguma coisa etérea, alguma entidade dessas cujo nome desconheço, e vou, numa espécie de regressão profunda a outras vidas, todas minhas e todas vividas por lá. E vivo isso, ainda que eu esteja confinado nesta caixa de ceticismo tomada em comodato do Criador, que está com a estrutura gasta e cheia de desenhos de tempo.  No entanto, ao contrário de Pandora, esta vive aberta e com mais coisas do que somente esperança pendurada na aba.

Quando vou a Uruguaiana, a minha terra santa, e santa porque sempre volto de lá com os fragmentos finais da minha juventude, percebo que há pouco hoje para tanto ontem.  

domingo, 25 de março de 2012

RAMON



Era uma noite de dezembro dessas mormacentas de Uruguaiana, em 1966. De diferente, a formatura do ginásio do Instituto União, com a pompa equivalente a falta de outras pompas ou alternativas. Encharcávamos tudo, desde a camisa Volta ao mundo aos carpins novos, comprados na Surreaux, e secávamos o suor da testa com a manga do casaco de tergal. Havia o lenço, mas este era engomado e enfeitava o bolsinho de cima do casaco. Éramos muitos, não lembro quantos, acompanhados por nossa claque familiar. Parecíamos doutores. Mania aquela dos familiares transformarem qualquer evento dos filhos num grande acontecimento. Hoje seria perigoso em função dos assaltos, ou proibitivo, em função da novela das nove.

O canudo nos foi entregue com um presentinho especial oferecido pelo colégio. Uma Bíblia, com amplas recomendações para que não deixássemos nunca de ler, uma vez que dali retiraríamos os ensinamentos necessários para a continuidade da nossa formação moral e religiosa. Aquele livro continha as setas que nos indicariam o caminho e as luzes que nos mostrariam a verdade e a vida. Justo e perfeito, porém,  o Criador que me anote mais esta a débito, caso haja espaço, tudo haveria de ser farra naquela noite.

Terminada a cerimônia, fomos liberados com meia dúzia de pilas cada um, para os Grapetes. A ideia clara dos pais era que ficássemos sentados no quiosque da praça olhando o footing piscando o olho para os “galetos”. 

Pensávamos diferente, portanto, fomos ao Ramoncito. (Quem não souber de quem se trata e não for mentiroso, digamos que tenha sido a versão pós-moderna e neofresca do Ivo). E de Bíblia na mão! Por certo haveríamos de converter alguma daquelas criaturas de vida fácil que enxovalhavam o nome das suas famílias vendendo seus corpos, ruborizando a sociedade pudica. A profissão mais antiga do mundo é condenada desde os tempos dos personagens do livro que carregávamos, e aquilo haveria de ser um forte argumento em favor dos nossos santos propósitos.

Ramon nos olhou atravessado, na porta de entrada. Alguns fedelhos de terno e Bíblia na mão, o que haveriam de querer?  Mas Ramon era uma criatura doce, não negaria acesso a um grupo de mórmons juvenis, ou seminaristas bem intencionados. Dentro do rendez vous nos separamos, uma vez que cada um teria que lutar por seus interesses usando seus talentos, atributos, etc., e a noite haveria de ser longa.  Soube de um colega que teria sido levado ao quarto por uma das moças para que benzesse algumas partes do seu corpo, digamos que suas ferramentas de trabalho, a fim de que jamais lhe faltasse clientes. Outro pregou durante uma hora um sermão individual, direto na orelha, condenando a atividade exercida pela moça, lembrando a ela que o corpo não nos pertence, é uma estrutura  por onde o Criador manifesta  sua imagem e semelhança, que recebemos em comodato, sendo que somos apenas fiéis depositários.  Portanto, de maneira nenhuma, sob risco de julgamento irrecorrível poderia ser comercializado, quando muito emprestado, ainda assim por uma boa causa que servisse ao próximo. E que ficasse claro que um jovem bem próximo, quase em cima e sedento de experiência seria uma boa causa.

Ramon nos deixou ficar o tempo que desejamos. Acho que tinha alguns de nós, mais taludos que chamaram muito a atenção dele, cujos nomes (calma!) não lembro.  Sei que depois, noutra oportunidade alguém, também não lembro quem, na fila do Corbacho com a namorada foi abordado com a sugestiva proposta: “yo voy a tracer um bluson muy lindo de ayá...Te gusta?”.  Ex-namorada.  

Sua casa faz parte de um tempo rico de histórias que jamais seriam contadas na Ceia de Natal, mas eram obrigatórias em qualquer outro lugar da cidade. Sua luz vermelha se apagou. Que o seu caminho  seja iluminado por  outras mais claras. Mais um que se foi e não deixou um livro, para a paz eterna dos que continuam.    

EM NOME DO FILHO


Páscoa, do livro Castelo de guardanapos


Tenho três fotos suas comigo, de três fases diferentes da vida. Na primeira, lá estava você, no colo plácido da mãe, com jeitão de nem aí para o que ocorria ao redor. Na segunda foto que tenho você montava  o  burro, vestindo aquele modelito demodê cheio de panos e pregas, sol a pino. Parecia constrangido e não mais com a virgindade da mãe. A terceira é preocupante. Não, não, você não está nada bem. Está magérrimo!  Talvez em função do esforço para multiplicar pães e peixes e alimentar-se somente deles. Esta não é uma dieta saudável. A bandana espinhenta também em nada lhe favoreceu.  Sua fisionomia cansada deixa transparecer todo o desconforto causado pela  posição de braços abertos.  Assim você se foi, dizem alguns. Outros dizem que você não demora voltará e de tão convictos pregam cartazes e estendem faixas. E há um segmento que diz que, na verdade, você está por aí, em todas as partes. Mas há ainda outros que perguntam: quem? A gente não agrada todo mundo. Nem você, como dizem.

Bueno, Mano, da minha parte quero dizer que o carrego em boa conta, embora não tenha feito ao longo da vida muita força para receber recíprocas. Confesso até que tenho lembrado mais dos seus assessores, principalmente a atarefada Edwiges (a propósito: você  influiu na mudança do Pai nosso? Estava tão bem o texto que dizia perdoai as nossas dívidas...). Mas se é verdade que você se foi é melhor deixar por isso mesmo. Fique onde está. Momentaneamente há muita necessidade, mas pouco clima para o seu discurso preferido que incluía amai o próximo como a si mesmo... Embora isso pareça amargo. Além disso, para que houvesse melhor adaptação aos novos tempos melhor seria nascer de novo, mesmo que passasse mais uma vida ouvindo cochichos sobre a sua paternidade, ou você acha que ficaria por isso mesmo a historinha aquela do Espírito Santo? Pobre Maria! Pobre José!

De você, a qualquer momento seria exigido que expulsasse os vendilhões do templo, porém não haveria de ser com aquele chicotinho ridículo. O pessoal anda pegando pesado por aqui. Mesmo que conseguisse, sobrariam quantos para ouvir os sermões? Falando em templo, você haveria de receber convites para os cultos de domingo cercados de toda pompa e luxo, uma vez que as igrejas, meu velho, têm uma arrecadação maravilhosa, isentas de impostos, mas e daí, como ficaria o papo do camelo passando pelo buraco da agulha versus rico batendo com a cara na porta do céu? Sua popularidade começaria a despencar.  E se nessa época  estivesse você  com 33 anos? Cuidado, não é uma idade de boas lembranças! Melhor, portanto não arriscar. Seria muito chato ser vaiado na casa do próprio pai e pior: acabar negociado por trinta fichinhas de vale transporte.  Por fim, mesmo que esteja acostumado a pregos, em função da infância na carpintaria do Zé, você sabe como poucos que eles não ficam nada bem cravados no meio das mãos.

Simplesmente reaparecer sem nascer de novo seria ainda pior. Você estaria um caco, quase coisificado, sem fôlego para longas  peregrinações e muito menos para assoprar duas mil e tantas velinhas. Portanto, fique onde está, meu caro. Pode ser que esse lugar seja aqui do nosso lado, como dizem aqueles, ou em todas as partes como dizem os outros, ou simplesmente habitando uma metáfora como pensa quem não quer pensar a respeito.  Pelo sim, pelo não, mantenha-se discreto e me ouvindo de vez em quando. Eu vou lembrá-lo feliz como gostaria de vê-lo. Não se esqueça de me recomendar ao Velho.

quinta-feira, 22 de março de 2012

SUPLICIO DE UMA SAUDADE




                                                                                                   Para Daisi Soares

Faz frio, chove, mas é sábado e com isso todas as agruras do tempo serão perdoadas. Serão perdoadas também as indisposições e constrangimentos da semana. As decepções dormiram ontem e esqueceram-se de acordar hoje. Também não serão lembrados os fatos bons, uma vez que já cumpriram sua função social e, caso se repitam futuramente hão de ser novos, e novidades boas sempre são bem vindas quando acontecem.

Hoje é sábado e não quero roubar mais esta do Vinicius, mas é imperativo que eu mais me espreguice do que cuide das folhagens; que eu durma um pouco à tarde induzido pelo negrão chileno de sobrenome francês (acho que da família Sauvignon) que mal chega aqui em casa e já vai embora, do que invente qualquer coisa para fazer no parque, afinal está chovendo e faz frio. Nem meu cachorro está a fim de sair para visitar seus postes, cheirar seus pares, bater continência com a patinha traseira até o último pingo, etc. Mas, sobretudo porque é um sábado que pretendo seja diferente dos demais. Por quê? Exatamente não sei, talvez por ter ouvido noite destas uma sinopse de história que tão-somente por adivinhá-la na íntegra me engasga, me tranca o ar na garganta e ameaça embaçar o vidro dos olhos. História que finda por lembrar Schopenhauer que fala de um vazio na infinitude do tempo e espaço em oposição à finitude do indivíduo em ambos. Coisa de que só os filósofos sabem falar, mas que nós, plebeus das ciências da alma sabemos viver.  O presente é fugaz; a vida é fugaz; será que ontem existiu ou foi um sonho? E amanhã, o que será de nós se não sonharmos? Mas é sábado, um dia que não foi feito para ser fugaz, caso efetivamente queiramos nos dar contas de que estamos vivos. Se águas devam rolar que sejam as das calçadas.

Vou ouvir na íntegra essa história um dia, mas de antemão já digo que a conheço, que já li a respeito; que a vi reproduzida em tela num dos tantos filmes de amor trágico que faziam sucesso nos cinemas de antes. Lembro de um em especial dirigido pelo King Vidor realizado em 1955, tendo  chegado até nós dez anos depois. O filme tem dois atores inesquecíveis e de irresistível carisma, um clima de amor e morte passado na Guerra da Coréia e uma música que, sinceramente, a gente ouve para buscar adjetivos e lacrimeja por não saber encontrá-los. A versão no cinema tem William Holden, como Mark Elliott, um correspondente de guerra americano e Jennifer Jones, como Drª Han Suyin, uma médica asiática. Amor entregue, da época do romântico, separação brusca e prematura numa história apaixonante que recebeu no Brasil um título como se fosse letra de tango: Suplício de uma saudade. Foi um filme cuja trilha sonora oscarizada era ritmada por narizes fungando e soluços incontroláveis no escurinho do Corbacho, em tempos que se afirmava: homem não chora! Mas as gurias adoravam nos ver de olhos vermelhos. 
em tempos que se afirmava: homem não chora! Mas as gurias adoravam nos ver de olhos vermelhos.

Entretanto porque hoje é sábado e eu quero apagar os cinco dias anteriores, não vou buscar o filme na locadora nem roubá-lo da internet. Hoje não é dia para sofrer, hoje é dia de dormir a tarde e arrebentar a noite, até o último fôlego. E amar muito porque afinal há neblina densa na curva da vida e os faróis já não são os mesmos.

Certo que vou depositar um sorriso carinhoso, mesmo que um pouco amargo na memória de uma amiga dizendo-lhe em pensamento que a gente vive de morrer em alguns filmes. Porém, sempre somos chamados para estrelar outros e assim devemos estar preparados para viver com garra novos personagens.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Gold finger


Do livro Castelo de guardanapos

Você chega aos cinquenta anos e nada, nunca mais, será a mesma coisa. É uma idade que dá para contar em séculos, meio, o que impacta até no mais despercebido ego.

A idade traz na mala de garupa muito mais do que uma eventual e simples aposentadoria. A vida cobra pesados ônus na razão direta das gastanças físicas, intelectuais e financeiras. Mas cobra também pelo simples fato de estarmos vivos e ousarmos desafiar a idade. Antes éramos velhos aos cinquenta, hoje podemos ser quase jovens ou metidos a isso. 

Há homens que justificam plenamente esta versão. Em nossos encontros anuais de Uruguaiana, observamos companheiros cuja cor dos cabelos de alguns que em nada se alterou, e que juram: sem química!  ou no porte de outros, que até hoje chamam a atenção de um antigo professor de geografia, mestre em meritocracia, que costumava premiar os alunos pelo desempenho; físico.  

Na balada dessa pretensão, as mulheres, felizmente estão anos-luz à nossa frente. Há um grupo de amigas, quase um clube, que se intitula PQG (Pensa Que é Gatinha) e curtem muito isso, mas dá um trabalho danado conferir calorias, medir índices de gordura e outras ginásticas, além das atividades de mães e profissionais. Tudo dá trabalho a partir da meia-idade.

Dia destes chegou a minha vez. Busquei no plano de saúde um especialista. Ninguém conhecido meu ou de meus amigos. Urologista.  Marquei consulta. 

Na noite anterior não dormi e na manhã do dia fatídico experimentei acordar mal-humorado. Jamais sou mal-humorado de manhã. Tenho várias testemunhas, todas femininas felizmente que atestam isso. Criei pretextos para não acordar, depois para não sair de casa. Sentia-me velho, um traste, indigno de vestir as calças que até então atestavam a minha condição de  homem. Na porta do edifício de casa fingi que havia esquecido as chaves do carro, na porta do consultório quis voltar, deixar para lá, afinal não tinha nada mesmo. A saúde estava como nos velhos tempos. Entrei. Na porta do consultório vacilei. Não uma vaciladinha qualquer como aquela quando o sinal troca do verde para o amarelo. Uma grande vacilada, como uma falha na hora H, brincando de bombeiro com a Luma.  Mas enfim, não era o único homem a fazer exame de próstata.

Entrei. Havia dois senhores quietos, quase sem respirar para não serem notados, olhos fixos em  revistas que até nem precisariam ter letras. Não queriam ler, queriam esconder os olhos. A educação me ensinou a dar bom dia. E fiz isso, mas nem eu ouvi o som da minha voz. Por outro lado, bom dia quando e onde, cara pálida? 

Sentei e busquei desesperadamente uma revista, qualquer uma. Sabe revista de consultório? A mais nova mancheteava: Caras-pintadas derrubam Collor !  Acho que uma das outras era O Cruzeiro. Não importava nada disso, queria, como todos os desafortunados presentes, esconder o olhos. Por prudência ou discrição, o consultório não tinha recepcionista. Já pensou, você ali, mortificado, e uma secretária lhe olhando, séria, talvez com  pena, vez por outra rindo, sabe-se lá de quê, ruminando um chiclete? Seria a ante-sala do inferno. Assim já o era. 

A porta se abriu e eu gelei. De lá saiu um cidadão, mais constrangido do que nós da sala, boné enterrado até os olhos, olhando para algum ponto do carpete, ou para o infinito além do solo. A seguir saiu o médico. Imediatamente olhei para o tamanho de suas mãos. Meu Deus! Porque não busquei alguém conhecido? O cara era enorme. Como um sujeito daquele tamanho se propõe a passar anos na universidade, gastando os olhos da cara, normalmente explorando os pais, só para se tornar urologista? E sai de sua sala sorrindo e dando bom dia! Só pode ser sádico. Vacilei de novo. 

O seguinte, ou a próxima vítima, foi chamado. Levantou-se da cadeira como uma ovelha cansada de se debater contra a fúria dos cães selvagens, entregue, arrastando-se penosamente até ser recebido à porta por aquele monstro. Fecharam-se.

Na sala de espera restavam dois, olhos fixos nas páginas da mesma revista de horas atrás. Então nos olhamos com profunda sinceridade. Ele tinha mais ou menos a minha idade e parecia em boa forma. Constrangimentos à parte, conversamos sobre o que nos levava a passar por aquilo, e que estávamos ali mais em respeito aos nossos familiares, etc. 

E variamos os assuntos, e seguimos conversando até o elevador, depois tomamos um cafezinho no bar do prédio, acabamos combinando um jantar com as famílias e um treininho da basquete no final de semana. Nos despedimos, cada um pegou seu carro e nunca mais nos vimos.  O exame!  Pela quarta vez, por motivos diversos foi transferido. Pior é que digo em casa que está tudo ok. Acho até que está, mas quem garante? Aliás, é mesmo da garantia que estou fugindo. Sei que não posso adiar ad eternum, até porque a eternidade pode chegar antes.

OS DÍGRAFOS

Adicionar legenda  (poema fraterno)

          

Do livro Assim como era no principio

Por humanos, pares,
A um tempo plurais e singulares.
Quanto mais pares, mais ímpares,
Que aglutinados e aglutinando,
Se encerram em nichos justapostos.
Números naturais, quase sempre primos,
Ao longo da vida divididos por unidade,
Ou por si, quando enfim multiplicados.
Dois perfaz um, nesta primalidade grupal,
Força que não prescinde da submissão diacrítica,

O que somos, como entidade social e afetiva?
O que buscamos além de Primus inter pares? 
Dígrafos. 
Quase sempre iguais. Nunca únicos,
De missão única, quase nunca igual.
Apegos vitais na gramática da convivência;
Recíprocos na formação do todo que importa;
Modulados para dizerem sempre mesmas coisas.
E seguirem juntos para os mesmos lugares.
Separam-se por meio, não fim, repudiando hiatos,
Apenas vez por outra, para dar curso à vida, 
E contrariados quando a linha chega ao final.

Meus afetos; meus pares; meus amigos...
Meus dígrafos... Axiomas do infinito.



domingo, 18 de março de 2012

NÃO CHORES POR MIM ARGENTINA



Do livro Castelo de guardanapos

Tive uma namorada argentina. O pai dela não gostava de brasileiros, chamava-nos de morochos, pajeros, vadicos e otras cositas mas, progressivamente menos nobres.  E falava olhando para mim, como diria Juca Chaves. Mas nunca fui de medrar com cara feia, não muito. Ademais, há cabeças que não têm cérebro e recebem um único comando: Vai e cospe! E eu ia, a pé, de carona, de ônibus para ter, na verdade, pouquíssimos prazeres.

Estelita, como o pai a chamava, era uma doce criatura de grandes olhos castanhos, estilo basset. Sabe, aquele cachorrinho salsichão? Usava, aos dezesseis anos, sutiã 44 e aí, somando aos demais, já eram quase cinqüenta motivos para encarar distâncias. Atravessar a longa ponte e ir até o centro de Libres, a pé, quando se tem menos de dezoito anos é um abraço, nem que seja para ver com quantas células mamárias se enche um sutiã.

Conheci Estelita num dos tantos confrontos com Club Barraca. Não sei se confronto fica bem, pelo menos é amplo e sugestivo. Jogo não era. Nunca soube o que era mais difícil: futebol ou basquete. No basquete, jogado com as mãos, os barraquenhos estavam à vontade para o soco, no futebol, além do soco eles tinham os pés, aliás, acho que jogavam com quatro. Mas do nosso lado também não havia santos, se bobeassem, relinchávamos.

O pai dela tinha especial desapreço por mim, nem me cumprimentava, ou melhor, sequer me olhava a não ser aliviado quando eu me despedia.  Acho que tinha ciúmes, aquele correntino incestuoso. 


Nossa comunicação, minha e dela, era bem razoável, considerando-se as diferenças de idioma, que nem são muitas. Era uma comunicação não verbal, porém  labial e  muito gestual, ou seja: nos comunicávamos aos beijos enquanto que os gestos eram os mais variados e complexos. Os movimentos das mãos só teriam uma leitura lógica à luz da antropologia. Mas não passava disso: mão aqui, mão ali, gametas sufocados pedindo liberdade, umidades e inchaços, nada mais.  De cinco em cinco minutos o pai tossia, resmungava um tango, dava um tiro. Sim, ele tinha uma arminha que dizia ser de pressão, não me lembro quantos milibares, com a qual treinava pontaria. Não sei se casualmente, mas sempre quando eu estava lá, mesmo no escuro e mesmo chovendo. Pelo sim pelo não, nunca olhei para o alvo para saber que formato tinha, dizem que vudu de argentino é batata.  Contando assim, faz lembrar a parábola do gato angorá que perdeu a cauda no trilho do trem, voltou para apanhá-la e acabou perdendo a cabeça. A moral é simples: Por um bom rabo...

Foi um namoro de três ou quatro meses que não teve um fim. Houve uma desistência em função de que, uma coisa era ir ávido, íntegro, rígido, outra era voltar a pé, embora mais ávido e rígido, desintegrado, assado, com testículos rendidos. Mal dava para caminhar. Havia outras alternativas mais próximas e bem menos desgastantes para a doce Estelita, seus beijos e seu sutiã 44.

Em nosso último encontro fomos todos ao restaurante. O pai não me olhava, mas olhando para a filha, perguntou o que eu gostaria de comer. Eu olhei para ela quase respondendo por impulso, mas pedi pizza, assim como pronunciamos. Fizemos as encomendas. O garçom, solícito, gritou salta una pizza caliente, assim como pronunciam os argentinos.  Sabe o que significa um cara gritando em pleno salão salta una pizza caliente? O povo argentino conheceu o melhor das minhas gargalhadas, que se misturou aos murmúrios constrangidos de todos. Mas o riso espontâneo se fez nervoso e aí tem disso: não para nunca. Então o padrezito perdeu a paciência que dizia que tinha e foi embora.  Estelita não falava nada, só tinha boca para sorrir suavemente e beijar. Como gostava de beijar! Pena que durou pouco. Não pude nem ver até onde ia a tal fase oral, quiçá mal elaborada.


sexta-feira, 16 de março de 2012

DE REPENTE DO RISO FEZ-SE O PRANTO



Tributo a Moacir Bastiani

"De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre começando...
A certeza de que é preciso continuar...
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar
...
Fernando Sabino

É certo que já nascemos com o objetivo de morrer e o fazemos desde o primeiro choro que nos traz à vida. É certo que vivemos em busca da longevidade lúcida. Do corpo, muitos de nós judiamos, uma vez que parece ter os prazeres do mundo o dom da judiação material. É certo que nunca é chegada a hora de morrer, mesmo para os que estão ali, no partidor da grande raia, ansiosos pelo “se vieram!”.

Não sei participar de momentos de dor sem ser protagonista. Não me serve o papel de coadjuvante porque olho ao redor e vejo braços querendo abraços, cabeças pedindo ombro, ouvidos que ouvem palavras compungidas, iguais em conteúdo e forma, mas que se esvaem de pronto, pois a única voz de consolo possível se calou. Resolveria alguém que súbito dissesse: “que susto hein? Agora vamos acordar”. E os olhos? Os olhos que se intumescem de vermelho por não conter o aquífero inesgotável bombeado pela alma com a irrespondível pergunta: "meu Deus, porquê?"

Quando morre um amigo morre um pouco do que somos. Morre uma tira preciosa dos nossos sonhos pueris de eternidade. São estes sonhos que nos mantêm teimosamente jovens quando toda estrutura física nos desmente. Por eles encontramos motivos para juntar, vez por outra nossas vidas dispersas, apenas porque sim. As nossas escolhas e o tempo nos fizeram desiguais. Pouco temos em comum; pouco ficou do que fomos na base da existência a não ser eles, os sonhos que sonhamos de calças curtas.

Não sei ser coadjuvante de momentos de dor profunda, porque não me ensinaram a postura da perda conformada. Não nasci para chorar afetos que morrem. Não sei o que fazer, cubro-me de reticências e tartamudeio até no  teclado. Em dias como este chego em casa, olho meus filhos, lembro dos mais próximos e rezo, e rezo, buscando a mais profunda fé que jamais tive para que o calendário do Criador não me negue o privilégio de partir antes.

Mas e a vida? O que é o que é meu irmão. Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo. É uma gota; é um tempo que não dá um segundo (Gonzaguinha). Pois é. Boa caminhada, meu amigo Moacir. Por certo a estrada estará mais fácil do que outras que trilhaste. Quanto a luz, tu mesmo levas.

Jair Portela

C'EST MA VIE


Tenho um gosto musical bastante eclético, não tendo conseguido nunca definir que tipo me dá mais prazer de ouvir. Claro, não estamos falando de circunstâncias. Em momentos up até alguns sambas-enredo caem bem, e nos dow, não sei quem rasga mais a alma se Antonio Marcos ou o Lupicínio.  Como não lembro quando foi a última vez que tive os cotovelos inchados, e talvez as juntas não me ajudem mais a embalar num samba-enredo, ouço mais o bom e velho Chico, mais pelas letras do que pelas músicas, assim como a boa e velha  Bethânia, que quando canta, imagino ser a Angelina Jolie. Mas tem uma música em especial, não sei bem porque é especial, que me toca profundamente. Tenho-a sempre comigo. Gosto tanto dela que vivo pedindo para que seja tocada no dia em que o Criador resolver me chamar para fazer um carreteiro de charque para os anjos. Também não entendo o porquê, uma vez que, então, estarei mais envolvido em tentar descobrir o sexo dos comensais.
C'est ma vie, do Salvatore Adamo é o topo da inspiração musical. Certa vez ouvi uma versão em português e achei um horror. Quis entender francês para saber do que se tratava e também perdeu a graça. É como aquelas namoradinhas platônicas da juventude. Eram belas e desejáveis, quando impossíveis, ou ainda, como a roda do carro para os cães, quando conquistadas morrem os motes. Esta música, portanto, gosto de ouvi-la assim, na sua língua original, sem ser entendida e sem poder ser cantada.

Algumas vezes, enquanto viajo, sinto-me tentado a colocar o cd para rodar, mas aí vem a questão: pedi para que fosse tocada em lugar da marcha fúnebre, não é mesmo?  Por que arriscar? As estradas andam muito perigosas. Melhor ouvir em casa, sozinho, tranqüilo, atirado, fazendo-me acompanhar por qualquer negrão chileno de sobrenome francês, das famílias Sauvignon, Merlot ou carménère, só para manter o clima. Uma garrafa chega. Mas e se for a hora de morrer? Sozinho, sem me despedir de ninguém, sem dar as recomendações para os filhos, tipo: crianças lembrem-se do quanto foi bom termos vivido juntos, mas não chorem por isto, construam uma família igual, e para a mulher: meu bem, você deve casar de novo, mas deixe o corpo esfriar. Essas coisas. Melhor não ouvir sozinho. Deitado, com o fone de ouvido é uma boa e segura alternativa.  Ademais, dormir escutando a música preferida é o próprio Nirvana, é como se entregar aos braços de Deus, convicto, redimido e feliz. O sono virá lento, suave, profundo, há de parecer que efetivamente Ele está chamando.  E se Ele entender que aquele momento de remissão e reencontro com a inocência é o ideal para me levar? Dormindo, sem poder argumentar, negociar, empurrar com a barriga? Nem pensar!

Qual foi a última vez que ouvi C'est ma vie? Talvez tenha sido em algum momento de profunda depressão, quando o Grêmio foi rebaixado, por exemplo. Ali uma parte da vida perdeu a razão de ser e, sei lá, o que viesse viria bem, ou num momento de grande alegria, de uma grande conquista, que somente o paradoxo tricolor é capaz de patrocinar. Como não é só do esporte que tenho alegrias, e muitas, por certo eu estava feliz, sem receios ou borracho na ultima vez que ouvi esta música, a ponto de dizer para o Velho: obrigado, Cara, vamos nessa! Não, não deve fazer muito tempo

Outro dia o querido amigo Ranquetat a música. Está gravada em arquivo muito especial no escritório e qualquer dia vou ouvi-la. Qualquer dia porque a tensão no trabalho está muito forte. Primeiro vou fazer alguns exames, verificar se continuo com o trinômio que me garante: pressão de menina-moça, batimento de atleta e temperatura de padre. Se bem que ninguém está livre de ter um acidente qualquer e acabar se mudando para a sobreloja. Ademais, escritório não é lugar para morrer, imaginem o que dirão?

Ouço vozes internas me estimulando: play it again, Jajá. Sinto-me tentado, mas e se as vozes forem externas?
























VERDES ANOS



Um pouco do que eu sonhava quando guri tinha olhos verdes, franja, algumas sardas e jeito comportado. Mas não era só isso que eu via nela. E não vou dizer tudo o que via porque metáforas têm limites e não haveria espaço para colocar o sol, o mar, todas as flores do jardim e outros exageros produzidos pela paixão juvenil, numa estrutura de mais ou menos 1,50m. 

Vou apenas resumir dizendo que o Criador, no sexto dia, às seis horas da tarde, antes do primeiro bocejo, extasiado com a magnitude de sua obra resolveu inventar o sorriso. É verdade que demorou um pouco mais do que o previsto, aperfeiçoando e adaptando caras e bocas, pois seu padrão era Mona Lisa, o que convenhamos, não tinha graça nenhuma. Enfim conseguiu satisfazer sua divina mania de perfeição oferecendo-o a alguém que conseguiu usá-lo de forma integrada, ou seja, fazendo com que todo rosto risse junto, boca, olhos e até a franja. Resultou então naquele conjunto harmônico, foco permanente dos meus olhos, moradora permanente das estrofes falhadas em meus versinhos de guardanapo e à altura dos mais suaves fetiches. 


Comparada a ela, Suzanne Pleshette, meu primeiro caso mal resolvido, era um nada.  Nesse namoro, que envergonharia Platão, a personagem era uma obra de natureza viva, exclusiva, hoje pendurada na parede das minhas confissões sem culpa.

Jamais me aproximei dela, ouvi sua voz, ou descobri do que gostava. Nem mesmo fiz por ela amplos planos futuros ou ousei fantasias eróticas. Nunca pensei nela como uma namorada de sentar na praça, nem alguém com quem pudesse me consumir nos pelegos.  Não havia e não há sequer uma música romântica que me lembre sua figura ou seu jeito. Só um contexto, um tempo e uma idade, tão bonita quanto contraditória. Uma parte de nós inchava os testículos nas reuniões dançantes e cantava: “eu te amo, meu Brasil, eu te amo...”; Outra vivia escondida, com medo de ter os mesmos órgãos inchados nos testes de amperagem, promovidos pela atividade repressiva extra-oficial.

Nem ao mais próximo segredei sobre aquela obsessão.  Mas ela, por certo, desconfiava. Impossível que não percebesse dois pares de olhos eternamente fixados na direção dos seus, irremovíveís, mortificados, teimosos, porém, vertendo fragilidades. Não havia o que temer, e talvez por isso o assédio virtual não a perturbasse. Assumia com generosidade e consciência social a sua condição de ídolo.


Recentemente descobri que não era único voyeur na vida dela. Nada mais, nada menos que dois times inteiros de basquete da época tinham por ela algum frisson, com variáveis de acordo com a imundice mental de cada um. Experimentei um gostinho amargo, quase me senti traído, mas logo, logo compreendi que eram questões diferentes. Os predadores da inocência queriam algo mais concreto, não lhes bastava a pureza platônica que só eu sentia. Não os culpo por isso. Eram sentimentos mais compatíveis com os padrões da idade, em todas as épocas.

Vi-a pela última vez há mais de trinta anos, mas lembro com exatidão como era.  É uma lembrança que dorme para sempre nos meus nadas bem guardados. Revê-la talvez quebrasse o encanto. Não seria ela e eu teria um motivo a menos para sentir saudades de mim e da minha bucólica Uruguaiana de antes. 


Está, onde deve estar, eterna natureza morta; sempre menina, incomparavelmente bonita, permanentemente impossível, e eu olhando para ela, anestesiado, com o rosto tão cheio de espinhas quanto de vergonha.

quinta-feira, 15 de março de 2012

JE VOUS SALUE MARIE!



ENQUANTO VOCÊ DORMIA



Sara era uma empregada dedicada. Mãe solitária, vivia em função da filha que vivia em função de passar e repassar olhares de mormaço aos pequenos galãs arrabaldinos. Mas Sara tinha também suas necessidades, desejos mal disfarçados. Apesar de quase quarenta anos, em tempos que isto era uma idade para deprimir qualquer mulher, não se achava de jogar fora. E talvez não fosse, não lembro.

Guris, (acho que em todas as épocas) na faixa de quinze anos costumavam perceber as representantes do sexo feminino, que não fossem mães, avós e irmãs, como se apenas peludos orifícios fossem.  Fontes intermináveis de feromônios, e pouco importava se fossem “resbalosos” ou não. Enfim, pouco mais do que ejaculódromos.

Sara queria “casar bem” a filha. Como todas as mães, lógico e justo. Mas quem estava ao alcance no momento era o Precioso (*). Tecnicamente um bom partido. Bonito, saudável, boa família, com futuro encaminhado face o olhar vigilante dos pais, cabeça privilegiada, etc. Tinha um pequeno senão: o mundo era seu território, Uruguaiana seu quintal. O Criador se quisesse que marcasse hora. Portanto, seus limites não eram demarcados pelas convenções sociais vigentes, ou vontades de outras partes. Os entraves que eventualmente inibiam seus avanços tratava de acordo com seus tamanhos ou graus de dificuldades.  Avançava sempre, embora respeitasse alguns nãos definitivos, mesmo não acreditando neles. Acreditava, sim, muito pouco em conselhos e desdenhava relhos, vassouras, chinelos e outros artefatos com que dialogava nas mãos do pai.

Era difícil não gostar do Precioso e com Sara não era diferente. Acompanhara um pedaço de sua meninice, o suficiente, porém, para num tempo curto decidir que mesmo vendo ali um destino melhor para a filha, talvez quisesse poupá-la desse futuro. Entretanto, como gostava muito do Precioso, não ia deixar com que partisse em definitivo para a vida sem ficar com algo dele, afinal dera muito dos seus cuidados de serviçal da família para aquele menino.

Sara tinha suas manias. Após o almoço tirava um cochilo. Precioso, no inicio, ia solertemente espiar a veterana pelas frestas da porta trancada. Num segundo momento, entrava no quarto de porta já então destrancada para olhar de perto o sono pesado da Sara. Depois a olhava ainda mais de perto porque ela já não ia trabalhar de “eslaque”. Passou a trabalhar de saia. Era mais fresquinho, dizia. Num terceiro ou quarto momento, já que estava nas dependências observando dois pares de perna com saia acima do joelho, porque não passar a mão? Como Sara tinha o sono pesado! E se tinha, porque não avançar para o intercurso carnal, mesmo que literalmente nas coxas? Ora isso lá seria empecilho para o Precioso!

A operação avançava. Sara já tirava sua pestana com as pernas entreabertas, talvez porque ficasse ainda “mais fresquinho”, mas tempos depois essa posição passou a criar dificuldades para o trabalho do Precioso, no momento em que este tinha de sacar a calça de opalina (samba-canção feminina) dela, embora ela desse uma acomodada para que esse processo fluísse mais rápido. Mas Sara, a experiente e dedicada serviçal, não estava lá para complicar a vida do filho do patrão e, portanto, passou a sestear “em pelo”.  Era muito mais fresquinho.

Como tinha o sono pesado a Sara! Sono dos bons e justos, porque as vezes em que a vi dormindo sob a ação frenética do Precioso, exibia um leve sorriso no canto dos lábios.

A prudente e sonolenta Sara, que sesteava de porta e pernas abertas por que era super fresquinho, costumava fazê-lo de acordo com o desempenho do Precioso, pois jamais acordava com ele nos quartos, digo no quarto. Medida simples e talvez prazerosa que possibilitou o casamento futuro da filha de acordo com os costumes da época: virgem.
  


O CÉU PODE ESPERAR



Aquele dia talvez não tenha podido resistir ao chamado do Criador. Talvez não tenha conseguido me segurar na frágil matéria. Todos sabem que quando Ele quer não tem de bicho, faz e pronto. Não está nem aí se é cedo, se a festa está boa. Pouco se lhe dá se a família e os amigos irão se aborrecer caso você se vá. "Ora onde é que já se viu sair de cena no melhor da festa!". Enfim, ando me adaptando as decisões tomadas fora da minha alçada sobre as quais não tenho ingerência. Talvez seja a idade (ou o juízo). 

O que está feito está feito. Pronto.

Assim, dia desses devo ter morrido e me fui, ainda sem saber quantas paradas haveria de fazer, ou mesmo se iria direto ao meu destino, sem escalas, cujo também desconhecia. Como não decidi a viagem, também não palpitaria sobre as paradas, mesmo porque ninguém me perguntou nada. E não levei nem mate. Vá que não houvesse parada para mijar.

Estava lá meio contrafeito sentado na boléia de uma nuvem, sorumbático e apreensivo. Para onde me levariam? pensava eu quando súbito começaram a passar diante dos meus olhos os múltiplos apelos dos novos mercados para onde me encaminhava. Loiras e morenas de lingerie vermelha de um lado (acho que muitas delas eu já conhecia), versus elementos alados cujo sexo não pude definir de outro, com suas carinhas de boa gente demonstrando quanto é inglória a disputa de novos clientes com apelos inocentes. (Alguém em sã consciência e, por favor, dispam-se do cinismo, se lhes fosse dado o direito de escolha teriam alguma dúvida sobre qual caminho tomar?). 


Fiquei procurando na nuvem onde era o botão da opção e me dei conta que também não era eu quem decidia. Gostosuras e travessuras ali, na minha frente expondo suas redondices e reentrâncias. E os anjinhos lá, sem fazer nada, nenhuma contraproposta, nenhuma deusa de vestido azul-claro, com fenda e olhar lascivo (ok, com olhar de mormaço, no mínimo). Nada. O que estarão pensando estas criaturas? Que me levarão assim no mole para ficar lá bocejando e arranhando harpa e o saco, só por que é politicamente correto? Aqui, ó! 


Meu Deus, onde estás que não interferes? Estamos em outros tempos, a vida mudou, o mercado está mais agressivo, as pessoas têm outras necessidades. Nada mais é como na época do Mano. Não viajamos mais de burro, nem usamos mais aquele monte de panos demodês e, se é bem verdade que continuamos estraçalhando nossos semelhantes, também é verdade que não temos mais a mania botar pregos nas mãos do pessoal da oposição. Hoje temos o costume de julgar, e até condenamos eventuais culpados, imagine. A despeito dos hábeas isto, hábeas aquilo; de acordos de liderança, pactos pela governabilidade, rodadas de pizzas, etc. Enfim, outros tempos. 


Reaja, meu Velho, caso não queira perder suas almas. Eu, que sempre ouvi maravilhas a respeito do paraíso gostaria claro de ser convidado a freqüentar. Ta, mas e daí? Vamos fazer o que depois da seis da tarde? E sexta-feira? Qual é a boa da sexta-feira? Não venha me dizer que todas são santas! 


Nenhum pedágio, nenhum pardal, estrada boa sem solavancos nem luz alta no retrovisor, mas não estava satisfeito. Que hora esta para morrer! Pior, nem fiz aquilo que todos deveriam fazer antes de ir embora: despedida de vivo. Uma farra homérica, sem china pobre nem garçom de cara feia. Das dez da noite às dez da manhã, como nos velhos tempos. Nada disso. Lá estava eu a bordo de uma nuvenzinha chinfrim, fora de linha, sem botão de opção. E os apelos me rodeando, como se eu pudesse decidir alguma coisa. Bosta!

Melhor acordar.

A CRIAÇÃO



Estava tudo certo. Fora criado o reino animal, mas o Criador estava num impasse: já tinha decidido que voariam os pássaros, nadariam os peixes e andariam outros bípedes e os quadrúpedes. Precisava então distribuir alguns atributos especiais. Tinha destinado ao homem a inteligência absoluta, mas só descobria depois, isso lhe traria alguns aborrecimentos.

Considerou que a fidelidade deveria ser canina e a deu ao cão, lógico, além de bom faro para que pudesse se achar em dia de mudança. Na onda da mesma fidelidade entraram os peixes que, orgulhosos, sairiam mar a dentro proclamando que filhinho de peixe, peixinho é. Deu olhos de lince ao lince, sem esquecer de produzir especialíssimos olhos de águia para a própria. Dotou o gato de acrobacia diferenciada para que mais tarde pudesse mostrar ao mundo o que haveria de ser o pulo do gato. A porca teria o rabo bastante flexível, uma vez que alguém haveria de vir torcê-lo em caso de apuros. Já o seu marido teria duas virtudes indiscutíveis: o lombinho e o pernil. Deu à vaca muita paciência  e anticorpos, pois haveria de passar a vida inteira indo para o brejo. A propósito de bovinos e paciência enquadrou o boi, a fim de que ostentasse sem queixas os chifres e que pudesse elaborar bem suas perdas. Ele passaria a ser o símbolo de doação e desprendimento. Nasceria como qualquer mamífero. Ainda jovem lhe arrancariam a masculinidade barbaramente, sem anestesia; passaria sua curta vida como corno manso, para logo a seguir ser morto, retalhado, queimado no calor das brasas e servido como pasto. E alguém ainda haveria de gritar: “o meu, mal passado!”.  Pobre boi. Mas ainda assim haveria de ter bom sono, pois dormiria com qualquer conversa mole.

O Criador teve dúvidas quanto ao burro. Burro ele seria, claro, por isso viveria emburrado e empacando, no entanto seria dócil o suficiente para ser amarrado à vontade do dono e humilde para que baixasse sempre as orelhas quando outro burro falasse. Ou quando alguém, despercebido, desse com ele n’água.  A produtividade ficaria com coelhos e galinhas. Os primeiros viveriam focados num dos mandamentos para preservar a espécie. Cresceriam e se multiplicariam rapidamente, pois mais dia, menos dia apareceria alguém com vontade de matar dois com uma única cajadada. As galinhas, que de grão em grão encheriam o papo, deveriam ser rápidas e abundantes na postura, evitando que algum apressadinho viesse a contar com o ovo no... Digo, em trânsito. O marido desta, polígamo assumido, além de cantor e ancestral do relógio-ponto teria grande virilidade, mas não haveria de ser lá essas coisas como amante.

Deus olhou com tristeza para o peru. Achou que não conseguiria retira-lo da depressão. Haveria de ser uma dessas criaturas que nunca participam de festas, pois enchem a cara antes e morrem na véspera. Quando procurou a serpente, o Criador não encontrou. Não estava confortável e queria livrar-se dela. Assim, resolveu premiar aquele que a matasse desde que mostrasse o pau. Mas que não houvesse mal entendido.

Por descuido nasceram insetos. O que fazer com eles? Bem o Criador era criativo. Grilos habitariam a cabeça do homem para faze-lo refletir  e pulgas, vez por outra, colocar-se-iam atrás de orelhas para após as reflexões.  Estes, então, participariam de momentos chatos. Chatos? E estes?

No fim do expediente restavam poucos atributos para serem distribuídos. A quem o Criador contemplaria com a moral e os bons costumes? O homem, pela capacidade de discernimento e para justificar a imagem e semelhança seria o mais indicado. E Deus perguntou ao homem se seria capaz de arcar com essas duas virtudes, e este vacilou. Desconversou dizendo que estava bom demais o que ganhara. Além disso, tinha um projeto futuro já desenhado que seria irrelevante tê-las ou não.  Dependeria sim da sua inteligência, capacidade de liderança e observação.

Disse-lhe o homem que dispensaria virtudes como as do cão e iria direto ao gato para testar seus pulos. De linces e águias, imaginariam como ficaria com os olhos destes; aproveitaria a paciência do boi, mas só para treinar metáforas flácidas, tendo o cuidado para não seguir o caminho da vaca. Iria, por fim, até a serpente negociar. Mas iria de pau na mão para matá-la, depois de comer a maçã e a Eva.

Estava ali o primeiro projeto político. Era sexto dia, seis da tarde, não dava tempo para mais nada e o Arquiteto pensou que talvez não tivesse sido tão justo na distribuição de atributos.

DAS PROFUNDEZAS DE UM DIA SEM FIM



Dedicado a todos os dias dois de janeiro...

Hoje é o dia santo de dois de janeiro e todos os exageros devem ser perdoados. A presunção de vida retiro do fato de ter abertos os olhos, lido uma parte do jornal no banheiro e não ter percebido meu nome no obituário. Ademais, respirar, respiro, mas o dia se esgueira em transe lento, desestruturado. O corpo foi-se à camada pré-sal enquanto que o espírito viaja longe em busca das Três Marias.


Estou cinco litros e dois furos de cinta mais gordo de tanto pecar com a carne. Com a carne, sim, de bichos variados, fuçadores e ruminantes transeuntes dos presépios. E com líquidos múltiplos, com bolinhas e sem bolinhas, de todas as cores, mas irremediavelmente partir de cinco graus de graduação alcoólica. Impõe-se de pronto uma dieta que deverá começar, como todas, na próxima segunda-feira, por que afinal, em algum canto da casa deve ter sobrado um espumante, alguma cerveja ou ambos. Se não sobrou, o supermercado fica logo ali, ora, pois. Ninguém é de ferro e consta em qualquer literatura médica que compostos químicos não devam ser retirados assim, de súbito do nosso organismo, o pobre! O desmame jamais pode ser brusco. 


Como judiamos da carcaça cedida em comodato pelo Criador! E muito mais judiamos em nome da felicidade. Que horror! Depois de segunda-feira (da próxima) prometo não colocar cerveja na boca por, digamos alguns dias. Vinho, claro, tem o fator coronário, é remédio, é alimento, etc, mas não mais do que uma garrafa de negrão chileno com sobrenome francês. Sim, por dia, é a graça que quero ver alcançada.  


Neste dia santo de dois de janeiro ainda não estou com os sentidos aprumados para olhar os trezentos e sessenta e poucos a frente. Tenho esperanças nele, mas nada de extraordinário. Sei, por exemplo, que o Mano ainda não voltará. Se é que um dia voltará; se é que um dia se foi. Bom para Ele que fique onde está. Lá, peleando por nós, ou aqui, no anonimato material. Ou lá e aqui, tanto faz. Bom para Ele por que como malvadinhos andamos sublimando. Continuamos judiando e matando em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém. Matamos por tudo. Por Nações ou por um par de tênis. Judiamos, mais do que do nosso corpo, do corpo dos outros, da terra, das paredes e muros, do nada e por nada. Só por judiar, só por matar, cumprindo a saga maldita que nos fez inteligentes também para o mal. 


Bueno, mas é dois de janeiro e não estou a fim de rever as reflexões natalinas, quando me prometi lutar por um mundo melhor, sensibilizado pelos presépios que exibem nenês deitados nos catres, circundado por bichos que não matam nada, além da nossa fome. Não, não. Quero, no entanto, usar este dia para, além de ficar aqui me fresqueando, falando sobre o poder do Engov e da Infalivina lembrar, ainda que furtivamente, que posso ser melhor neste ano. Não vou precisar do Jorge Luiz Borges e do seu suposto poema maravilhoso de arrependimento pelo que deixou de fazer. Mas é certo que tudo o que eu fiz vou fazer melhor. Não há de me faltar tesão nem fôlego para isso. Ainda não (Tomara que não!). Portanto, amigos do meu coração, afirmo, neste dia da graça de dois de janeiro, mesmo que ainda entorpecido de excessos, que não pouparei esforços para ser mais amigo, mais pai, mais companheiro, ainda mais irmão. O Criador há de me permitir esta gauchada, por que não me quererá ver entrando em seus domínios de cara feia, riscando o facão e reclamando. É cedo.


E alguém me abra mais uma por que esse papo todo me deu sede

terça-feira, 13 de março de 2012

OLHO A ROSA NA JANELA




Ao amigo de voz incomparável Orlando Torres.

Tem uma música, Modinha, do Sérgio Bittencourt, filho do Jacó do Bandolim que é um soneto musicado. Suave, romântica, entregue, derramada em estrofes quase juvenis. Enfim, é a serenata de amor que Schubert pensou ter composto. Modinha é uma baliza importante nas minhas frustrações mais antigas. Quisera eu tê-la escrito, se não, musicado, ou ao menos cantado em uma qualquer das nossas serenatas das sextas-feiras loucas. Por incompetência não escrevi e por juízo não cantei, mas passo horas bocejando seus versos, hoje quase como um desalento.

Modinha jamais seria composta hoje. O  mundo saiu do lugar, ou  nós o tiramos. Mudou de rota, está grosseiro, animalizado. Tem muito carro na rua sem espaço para ter, muita fumaça sem fogo, muita bala à toa em busca de alvos despercebidos, muitos dentes à mostra sem haver sorriso, muito ódio de graça. Andamos, sim, por aí, mas jamais sem um objetivo claro e urgente. Não passeamos mais, seja por medo, seja pela falta de tempo que criamos, ou de saco. Não pertencemos mais ao grupo humano que um dia cometeu a doce insanidade de pensar Modinha. De sussurrar Modinha no ouvido das flores.

Mas e então, morremos? Talvez, mas se podemos acreditar que três dias depois alguém voltou do plano misterioso chegou a nossa vez de ressuscitar. Se por um mísero lapso de tempo pudéssemos olhar as grades das janelas como se olhássemos as rosas de antes dependuradas; se ao menos por uma vez pudéssemos trocar o pesadelo nosso de cada dia por um sonho pequeno que nos tornasse menos adulto, e então ousássemos roubar um buquê de grades cheirosas para ofertarmos à nossa reclusa namorada, a última, e que não fosse em mortalha; E se pudéssemos andar quando o sol se findasse lento soltando nossa voz, na voz do vento indo em busca do que,  quisesse Deus não fossem vultos, porque afinal não estamos mais tão românticos e os vultos de hoje só assustam; e se pudéssemos despedaçar nosso verso desajeitado em busca de um perdão, qualquer um, pelas tantas penas que nos devemos, mas uma em especial  por termos participado da construção  dessa versão neohumana, incapaz de ser ingenuamente feliz, então ainda teríamos chance. Fácil não é, mas tão-somente estar vivo também não é.

Não morremos, apenas moribundeamos queixosos por um ontem que nos faz falta porque lá tínhamos o bom costume de sonhar. E se tínhamos, e eu, porque sei o gosto dos sonhos, de cada um deles, me queixo pelo tão pouco que me falta, e pelo bem incalculável que me faria senti-los novamente.

Vez por outra olho e vejo rosas gradeadas, de perfume reprimido e lembro de um violão e um tocador incomparável chamado Orlandinho.