Ramon ajeitou o pequeno espelho da parede, acertou o nó da gravata, limpou uma suposta poeira da lapela do casaco. Ok. Mas não se reconhecia. Aquela haveria de ser uma noite muito especial. Faria valer o esforço de ter pedido o smoking emprestado e feito alguns ajustes com duas ou três joaninhas;. Hora de colocar os pingos nos "is".
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Aos vinte e poucos anos era um boêmio recém-saído, ou nem bem saíra de uma relação doentia. Precisava novos ares, luzes mais claras, noites menos enfumaçadas e pessoas com menos patologias espirituais. Era o seu dia “D”. Gostaria de recriar um novo homem que soubesse conviver com ar puro e hálitos frescos, embora já houvesse tentado “N” vezes sem sucesso. A primeira façanha para metamorfose fora alcançada: o convite para a festa que era um acontecimento na cidade.
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Desde a entrada percebeu que precisava de um gole. Duplo. Apesar do convívio com hábitos não tão saudáveis não costumava beber, mas era impossível conter os tremores. A festa era realmente tudo aquilo que se falava, e já que ali estava, trataria de aproveitar ao máximo cada detalhe. Relaxar era preciso.
Então veio o baile. Dançar sempre foi o seu forte, mas dançar com quem? As moças pareciam de cera, lindas, ricas, inatingíveis. Talvez outro gole. Duplo!
De varrer com os olhos o salão em 360º encontrou um rosto conhecido. Alguém que já vira não lembrava onde, talvez numa foto de jornal, essas coisas. Cabelos longos ruivos, olhos claros passeando despercebidos pelo salão. Ficou por ali, insistentemente buscando conexão com aqueles olhos até que se encontrassem. E se encontraram. A primeira vez de relance, a segunda com pausa e a terceira com pouso, carregando os sinais inexplicáveis que só acontecem a olhos que procuram olhos.
Entre um gole e outro, entre um olhar e outros tantos, pegou coragem e foi à abordagem. Era um bolero, bom de dançar. Dois pra lá, dois pra cá, mão direita quase em riste na cintura da moça, braço esquerdo em “L”, mão segurando a direita dela, rostos a um palmo de distância, mudos.
Entrosados, continuaram dançando. Dois pra lá, dois pra cá, mudos. Ele precisava dizer alguma coisa, mas o que dizer se o seu “ABC” era todo formatado para uma eventual cantada enquanto dançava? E aquela não era mulher para ouvir um “beabá” qualquer. Ah, não mesmo. Veio um tango. Criou coragem, mesmo com medo que aceitasse, perguntou se queria sentar, uma vez que aquilo não era música de moça. Ela foi direta: sem figuras eu danço. Estavam tão entrosados que parecia par permanente, desses que riscam o salão em “S” e são olhados. Soube então que era a senhorita tal, filha do dr. Tal, formada em tal e tal. Ele, o
fulano mais de tal da madrugada. Assumia seus riscos. Pensem em um grande salão emoldurando a noite da dama e o vagabundo, ou em uma versão nem tão clássica de Cinderela.
Notou que a sua mão direita já segurava o outro lado da cintura, o braço esquerdo ainda em “L”, porém minúsculo, segurando a mão dela com mais força e os rostos a quatro dedos magros de distância.
A música começou a ficar lenta. Abobrinhas pra lá, abobrinhas pra cá, desenvolveram certa intimidade. Ela vinha de um noivado desfeito há pouco e era visível que convalescia. Ele então também vinha. Ele sempre vinha.
A mão direita fazia a volta cintura dela e quase o tocava do outro lado quando, sutilmente,largou a esquerda para coçar o olho. Truque antigo, mas que diabos, ele não poderia violentar sua natureza. A mão dela, tão logo solta, repousou no seu peito e o seu braço nunca mais ficou em “L”. Os rostos, dependendo do movimento, chegavam a roçar. Mas até ali, ele mantinha a bunda respeitosamente jogada para trás, em posição lordose. Tudo a seu tempo.
Mais música lenta e raras conversas sobre a vida e amores desfeitos. Ramon percebeu que a mão direita dela quase tocava o seu queixo, sugestivamente aberta, já a sua esquerda, que há muito fazia companhia à direita, separou-se porque os braços quase formavam um “X” nas costas dela. E os rostos eram um só. Não falavam mais nada e a cada intervalo de música, seja lá que ritmo fosse, separavam-se contrariados como dígrafos no final da linha. Durante os intervalos falavam pouco e se olhavam muito. Ambos sabiam qual era a função dos seus
personagens naquela noite, e de resto no mundo de cada um. Mas que ninguém ousasse perguntar a ele se trocaria o papel principal da sua história por um de figurante na dela. Dançaram o resto da noite, côncavos e convexos, sem reservas ou restrições, rostos colados até o cantinho dos lábios e poucas frases para que não houvesse promessas.
O anúncio de que a próxima haveria de ser a última música, desceu como uma nuvem inexplicável e densa sobre ambos. Não necessariamente ruim, muito menos boa. A melodia soou como um hino apoteótico ao final de algo maravilhoso que sequer começara. Uma música linda, romântica, suave; uma despedida, ou um pedido de perdão pela noite de pares improváveis, circunstanciais: Excuse Me You, a float in the lost world of dream (Você, uma balsa num mundo perdido de sonhos). Prometeram-se essa música para o resto da vida, como uma espécie de escapulário.
Ao fim quase não disseram nada, apenas ficaram alguns segundos de mãos dadas, olhando-se para além dos olhos, formando um grande “V” de hastes fechadas com os braços. V; de Victória. Ouviu dela um obrigado, que interpretou como um manifesto por ter tornado uma noite que seria triste num ritual de reafirmação. Ele também agradeceu, e quis que ela tivesse entendido como uma bênção por lhe ter mostrado o quanto pode ser puro o outro lado da meia-noite.
Victória se foi e Ramon tentou acompanha-la com o olhar até que desaparecesse entre as pessoas. Mas ela não desaparecia. Então, ao ver-se quase sozinho na saída do grande salão, percebeu que a imagem dela haveria de ficar por muito tempo gravada em suas retinas. E assim voltou para casa olhando longe, soletrando um passo, bocejando um samba, exausto de tanto não pensar.
Nunca mais se falaram. Vez por outra ela posava na coluna social. Um dia ele a viu com o noivo, reconciliada, e depois no seu casamento. Não resistiu. Foi até a igreja. Cerimônia linda! Pareciam realizados, e pelo coração de Ramon não passou nada que não fosse a alegria de vê-la feliz. No entanto, a marca daquela noite inesquecível estava lá. Quando voltava do altar, a música que haviam se prometido dava o compasso ao andar harmonioso do casal.
Victória sorria o sorriso das noivas, mas quando o viu abriu os lábios e arqueou as sobrancelhas, como se quisesse (e como se precisasse) lembra-lo sobre a música que tocava. O sorriso dela deveria estar lá desde sempre, mas ele quis entender que recém iniciara e que era todo seu.

Um comentário:
Fantástico!!! Maravilhoso texto, as entrelinhas me levaram a outros tempos, reminiscências de sentimentos,dai vieram as lágrimas, obrigado 👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻📖📖
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